PIB português poderá cair a dois dígitos em 2020

Publicado em 07/11/2020 19:00 em Análise de Conjuntura

Os dados estatísticos disponíveis (grande parte apenas até Agosto), o claro agravamento da pandemia, com inevitáveis medidas de contenção, o previsível encerramento de empresas e de aumento do desemprego levam-me a admitir que o Produto Interno Bruto (PIB) português possa este ano cair a dois dígitos, abaixo ds menos 10%.

Esta é uma previsão de um jornalista habituado a fazer análise de conjuntura, mais negativa do que a queda de 9,3% prevista pela DG EcFin da Comissão Europeia (CE), que foi elaborada por um conjunto de especialistas europeus em economia e estatística, o que mostra a dimensão do risco que este autor corre, tanto mais que as medidas de contenção são menos rigorosas do que as de Março.

O principal vector desta previsão está em admitir um resto de ano bastante desfavorável em termos de emprego e rendimento das famílias. A situação deverá piorar à medida que terminem as moratórias de pagamentos em dívida.

Portugal é um país muito dependente do turismo, é particularmente vulnerável a um recuo brutal desta actividade.

Um inquérito da AHRESP, representativa da hotelaria e restauração, indica que 36,3% das empresas de alojamento tiveram em Outubro quebras homólogas (face ao mesmo período do ano passado) de facturação superiores a 90% e 27,7% entre 60% e 90% e que mais de 43% das empresas de restauração tiveram no mesmo mês quebras homólogas acima de 60%.

Para os próximos três meses (Novembro a Janeiro, quase dois terços (65%) das empresas de alojamento antecipam quebras homólogas de facturação acima de 75%, o mesmo acontecendo com 37% das empresas de restauração, segundo a AHRESP.

A sondagem revela que em Outubro 23% das empresas de alojamento não tiveram qualquer cliente e 30% tiveram taxas de ocupação até 10%, para Novembro metade estima uma ocupação zero e 24% um máximo de 10% e para Dezembro e Janeiro 57% esperam ocupação zero.

O inquérito indica que no alojamento mais de uma em cinco (21%) das empresas de alojamento em Outubro não pagou salários e 9% só os pagou parcialmente, percentagens que na restauração são de 14% e 11%.

Desde Março já efectuaram despedimentos 27% das empresas de alojamento e 15% dizem que não poderão manter todos os empregos até ao fim de 2020, enquanto na restauração 47% já despediram e mais 23% prevêem diminuir ou voltar a reduzir o emprego este ano, segundo as respostas ao inquérito.

A sondagem a 1 249 empresas do sector revela que 43% das firmas de alojamento dizem que não vão conseguir solver todos os seus compromissos em agravamento Novembro e quase um quinto (19%) ponderam pedia a insolvência, enquanto nas de restauração 44% dizem que não conseguirão suportar os encargos habituais e 41% admitem avançar para a falência.

O alojamento, restauração e cafés empregaram 399 405 pessoas, sendo 282 934 trabalhadores da restauração e cafetaria e 116 471 do alojamento. A estes acrescem muitos milhares de trabalhadores de sectores adjacentes, desde os autocarros de turismo aos táxis T e «tuk-tuk», até às lojas de recordações, museus e monumentos e lojas diversas.

Basta ver como está o movimento das baixas lisboeta e do Porto, de muitas localidades algarvias, assim como localidades turísticas por todo o país, incluindo no interior, para ter a ideia da dimensão da catástrofe económica no sector turístico.

Em Setembro, o valor das compras em terminais de pagamento automático (TPA) com cartões emitidos no estrangeiro caiu 46,0%, para 278,4 milhões de euros., segundo o Banco de Portugal com base em dados da SIBS.

A Web Summit, que todos os anos por esta altura de Novembro traz a Lisboa dezenas de milhares de pessoas, entre as quais algumas dezenas de milhares de gestores, empresários, responsáveis políticos e tecnólogos estrangeiros, movimentando muitos milhões de euros, realiza-se este ano virtualmente de 2 a 4 Dezembro, com enorme quebra de receitas para o país e a capital, o mesmo acontecendo com muitos eventos, nacionais e internacionais.

Segundo dados do INE, as dormidas de não residentes terão caído 71,9% em Setembro, mês em que estima que quase um quarto (24,3% dos estabelecimentos de alojamento turístico estiveram encerrados. Com o forte agravamento da pandemia na Europa e um pouco por todo o mundo, a situação não pode deixar de se agravar.

Mas a perda de postos de trabalho não se limita às áreas ligadas ao turismo e muitos outros sectores e empresas, algumas aproveitando de forma oportunista a desculpa da pandemia para fechar ou fazer despedimentos colectivos, vão contribuir para engrossar o número de desempregados.

Em Setembro, segundo o INE, o desemprego atingiu os 404,1 milhares na definição estatística restrita, e, incluindo os que querem trabalhar mas que estão classificados como inactivos, o número sobe para mais de 637 mil. A estes acrescem quase 160 mil que queriam trabalhar a tempo inteiro mas só obtiveram trabalho a tempo parcial.

Segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), estavam inscritos em Setembro nos Centros de Emprego mais de 410 mi desempregados, um aumento de 36,1% face a Setembro de 2019.

A actividade de transporte aéreo de passageiros teve uma redução abrupta e esta é outra área onde se registam grandes despedimentos em todo o mundo e, também, em Portugal. Segundo dados do INE, as receitas totais da actividade de transporte aéreo de transporte aéreo (passageiros, carga, correio e outros) baixou 68,8% em Agosto

Em Outubro as vendas de vendas de veículos novos em Portugal caíram 13,0% homólogos (redução de 36,3% de Janeiro a Outubro), com queda de 12,6% nos ligeiros de passageiros novos (menos 37,1% nos 10 primeiros meses do ano), segundo a ACAP - Associação Automóvel de Portugal.

A ACAP revela que as vendas de ligeiros de mercadorias baixaram 15,1% em Outubro (redução de 32,1% nos 10 primeiros meses) e as de pesados diminuíram 15,0% mano mês passado (menos 32,2% de Janeiro a Outubro), indiciando uma redução do Agosto (um mês sazonalmente fraco na indústria)investimento em material de transporte.

O INE revela que o indicador de investimento caiu 0,6% em Agosto (último mês disponível, apesar do aumento se 8,2% do investimento em Construção. Também em Agosto, as importações de Máquinas, outros bens de capital e acessórios recuaram 3,5% e as vendas industriais de bens de investimento para o mercado nacional baixaram 13,9% em Julho e 9,8% em Agosto, sempre em termos homólogos.

Em Setembro, a produção industrial (excluindo energia) baixou 0,9%, com queda de 6,8% nos bens de investimento (menos 32,0% no terceiro trimestre) e em Agosto o volume de negócios na indústria caiu 5,6%, com redução de 6,3% para o mercado nacional (INE).

Os dados do INE mostram que em Agosto o volume de negócios nos serviços recuou 16,2%, muito influenciado pela queda de 30,7% dos transportes e armazenagem e redução homóloga de 39,7 do alojamento, restauração similares, mas com todos os segmentos em queda à excepção das actividades de comunicação e informação, onde o negócio cresceu 3,1%,

Mesmo na construção, onde o investimento subiu, a produção caiu 1,3% homólogos em Agosto.

Em Outubro, o indicador de confiança dos consumidores foi menos negativo, mas mantém-se claramente abaixo da média da série. Com todos os itens no vermelho, as apreciações sobre a situação financeira do agregado familiar são menos negativas do que a média da série, ao contrário das expectativas sobre a situação económica do país e sobre realização de compras importantes (ambos nos próximos 12 meses, que estão ligeiramente menos negativas mais muito abaixo da média da série.

O indicador de confiança na indústria transformadora interrompeu a tendência de recuperação e mantém uma procura global bastante negativa.

O indicador de confiança na Construção mantém-se negativo, mas melhorou e é o único que se mantém acima da média da série, enquanto o indicador de confiança no comércio melhorou mas está significativamente abaixo da média da série, situações comuns aos subsectores grossista e retalhista.

A confiança nos serviços também melhorou mas continua negativa e muito abaixo da média da série.

Para além das preocupações com a procura interna em Portugal nos próximos meses, em particular ao nível do consumo privado e do investimento (a famosa «bazooka», admitindo que a teremos, ainda tardará a chegar).

Além disso, a procura externa dirigida à indústria portuguesa por parte dos principais parceiros comerciais tem tudo para não correr bem, em contexto de contenção e em muitos casos, de confinamento por essa Europa fora.

Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, que no ano passado absorveram mais de metade das exportações portuguesas, enfrentam actualmente situações económicas complexas.

A Comissão Europeia prevê que em 2020 o PIB caia 12,4% em Espanha, recue 9,4% em França, baixe 5,6% na Alemanha e desça 10,3% no Reino Unido.

Na Itália, que se situa entre os mais importantes parceiros comerciais, o produto poderá cair 9,9% este ano, segundo a CE.

Na Alemanha, considerada o motor económico da União Europeia, o prestigiado Instituto de Conjuntura Ifo, ligado à Universidade de Munique, assinala que as expectativas de produção da indústria alemã para os próximos meses se deterioraram em Outubro e destaca que as medidas de confinamento anunciadas pelo governo germânico vão provocar um significativo corte nas perspectivas económicas da Alemanha para o quarto trimestre.

O maior banco da Alemanha, o Deutsche Bank, numa nota de research, prevê que o inevitável surto de falências de empresas decorrente da pandemia de coronavírus, com profunda recessão, vai ter um impacto significativo nos bancos alemães.

Indica que o Bundesbank, o banco central germânico, antecipa um crescimento máximo de 36% nas insolvências até ao segundo trimestre de 2021, para um nível que não se via desde 2013.

O Deutsche Bank defende que o que torna este recessão única é o facto de afectar simultaneamente os sectores industriais e de serviços, em contraste, por exemplo, com a Grande Recessão, a queda surge depois de um longo período de crescimento desde a reunificação alemã e as taxas de juro historicamente baixas podem tornar mais benignas as condições para enfrentar a recessão.



Fernando Valdez



Nota: esta análise, anunciada para sexta-feira, atrasou-se pela necessidade de procurar informação adicional. Resta a esperança de que esteja enganado e a quebra do produto em 2020 seja menos gravosa, até do que o previsto pela CE.

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