Banco Portugal prevê queda 8,1% PIB nacional em 2020

Publicado em 07/10/2020 00:32 em Análise económica

O Banco de Portugal prevê que o PIB português recue 8,1% em 2020, admitindo para o segundo semestre uma retracção de 6,8%, depois de uma queda de 9,4% no primeiro semestre, segundo o Boletim Económico de Outubro, hoje publicado.

Nas páginas deste sítio Internet avançamos anteriormente com uma previsão de queda do PIB este ano da ordem dos 9% e que, particularmente se houver uma segunda vaga, se poderá aproximar de uma redução da ordem dos 12% na riqueza produzida no país, números que, por enquanto, mantenho.

Saliente-se que o Boletim Económico de Outubro alerta para que «as perspectivas económicas estão muito dependentes da evolução da pandemia» e admite que «o prolongamento da crise pandémica pode conduzir a um ciclo de retracção da despesa e da oferta».

O Boletim assume que «as actuais projecções assumem como hipótese central um relativo controlo da doença, em Portugal e nos seus parceiros comerciais, que permitirá a continuação da dissipação gradual do impacto económico directo da pandemia na segunda metade de 2020», mas admite que «as projecções têm um grau de incerteza superior ao habitual».

A segunda vaga da Covid-19 parece estar a bater à porta ou já ter entrado, e os despedimentos já chegaram, principalmente para trabalhadores precários, como os que estavam a recibos verdes à tarefa ou a prazo.

Os despedimentos e salários em atraso vão provavelmente aumentar nos próximos meses em muitas empresas de sectores com maiores dificuldades, como a hotelaria e restauração, outras áreas ligadas ao turismo (como) e da cultura e espectáculos, entre outras.

Mas os despedimentos atingirão também muitos trabalhadores de empresas, incluindo multinacionais, sem dificuldades económicas e lucrativas, mas que pretendem “aproveitar a boleia do vírus” para cortar na despesa.

E, dado o peso do consumo privado no PIB e que – segundo o INE – 100 euros a mais ou a menos no consumo privado fazem variar o PIB em 77 euros, o desemprego e outra que afectam o rendimento das famílias têm grande impacto na evolução do produto.

A confiança dos consumidores caiu em Setembro e está num nível bastante baixo, principalmente devido às apreciações sobre a situação financeira familiar e da economia do país, segundo o INE.

O Boletim Económico de Outono do Banco de Portugal analisa o conjunto de medidas tomadas em Portugal e na Europa para minimizar as consequências deste «choque exógeno negativo, sem precedentes em termos de magnitude e centralização», como as medidas acomodatícias de política monetária do Banco Central Europeu (BCE) para garantir condições de financiamento favoráveis nas economias da área do euro.

Em Portugal, cita as moratórias de pagamento de empréstimos que no fim de Junho beneficiavam 15% do crédito das famílias e quase 30% do crédito das empresas, linhas de crédito com garantia pública para evitar falências de empresas viáveis, adopção do «lay-off» simplificado, adiamento de alguns pagamentos de empresas ao Estado sob certas condições, apoios financeiros a trabalhadores sem vínculo.

O banco central antecipa que na segunda metade de 2020 o consumo privado caia 4,5%, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, investimento) baixe 4,8% e as exportações líquidas se reduzam 5,2%.

Perspectiva que os sectores ligados ao turismo e a serviços mais expostos aos contactos sociais, que foram os mais afectados pela pandemia, tenham uma recuperação particularmente lenta, devido à incerteza sobre o problema sanitário, e observa que os organismos internacionais que acompanham o turismo apontam para uma recuperação lenta e incompleta do sector num futuro próximo.

Indica que as exportações do turismo pesaram 8,7% do PIB em 2019 (o quarto maior na área do euro) e no Valor Acrescentado Bruto (VAB) da economia o peso do turismo subiu de 8% em 2018 para 11% em 2019, sendo que a componente de não residentes [a mais afectada pela pandemia] determina dois terços do VAB do turismo.

O controlo da pandemia em Portugal e a contenção da segunda vaga, que já começou a instalar-se, é determinante para a evolução da segunda vaga. Um controlo que, não dependendo só do país, é em grande parte determinado pelas políticas sanitárias adoptadas pelo governo.

Não basta proclamar que o país não volta a confinar para que a economia floresça. Pelo contrário, se a pandemia se agravar a economia será bastante afectada.

É necessário ter a lucidez de adoptar as medidas mais adequadas, mesmo que não sejam muito populares, investir na saúde e na protecção sanitária das crianças e jovens que estão a frequentar a escola sem condições de segurança mínimas, no reforço dos meios de saúde e na protecção dos seus profissionais e, até, se for indispensável, não hesitar em tomar algumas medidas de confinamento pontuais.

E parece ser cada vez mais confirmado que o uso de máscaras em locais muito movimentados é importante para evitar a propagação da pandemia.

De tudo isto dependerá se é possível ter o cenário económico menos desfavorável avançado pelo Banco de Portugal ou se tanto a economia como a saúde dos portugueses vão sair mais penalizados.

Fernando Valdez

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