Queda PIB português dificilmente ficará abaixo 10% em 2020

Publicado em 31/07/2020 23:14 em Análise de Conjuntura

A queda do PIB português dificilmente ficará abaixo dos 10% em 2015 e a previsão de queda de 6,9% do Orçamento suplementar é uma ficção, segundo cenários efectuados tendo como base as estimativas hoje publicadas pelo INE.

Embora a elaboração de previsões seja extremamente difícil no actual contexto de saúde e económico, agravado por tensões internacionais, é de admitir que a queda do produto português em 2020 se aproxime dos 14% (menos 13,6% homólogos na hipótese de crescimentos em cadeia de 2,2% em cada um dos dois últimos trimestres do ano), não se podendo excluir que a redução seja maior.

Não se utilizaram cenários menos optimistas do que este, mas não é de estranhar que a realidade venha a desmentir este relativo optimismo.

Usando as estimativas hoje divulgadas, seria necessário que o produto aumentasse em cadeia (face ao trimestre precedente) 12,8% tanto no terceiro como no quarto trimestre para se concretizar a redução de apenas 6,9% homólogos na riqueza produzida em Portugal em 2020.

E seriam precisos aumentos em cadeia de 8% no terceiro e 8% no quarto trimestre para o produto cair apenas 10% em 2020, mais gravoso do que a redução de 9% que o Ministro da Economia admitiu agora em declarações a um órgão de comunicação social.

De salientar que nos últimos 25 anos o maior aumento trimestral do PIB em cadeia foi de 2,2%, no primeiro trimestre de 2000. Poder-se-ia argumentar que dada a profundidade da quebra do produto no segundo trimestre haveria margem para uma recuperação rápida em condições normais.

Mas o pressuposto de condições normais não se verifica num contexto de crise económica mundial, com a pandemia a manter-se e, ultimamente, mesmo a agravar-se em diversos países, incluindo europeus, com o cutelo de uma segunda vaga da Covid-19 sobre as nossas cabeças e sobre a economia, num contexto de redução mundial do turismo e das viagens aéreas e quebras significativas no comércio internacional.

As primeiras estimativas reveladas pelo Eurostat, com dados apenas para 10 países da União Europeia (UE), apontam para fortes quedas homólogas do produto de alguns dos principais parceiros económicos de Portugal, desde logo do maior parceiro, a Espanha, com redução de 22,1%, mas também de outros importantes parceiros como a França (menos 19,0%), a Itália (menos 17,3%) e a Alemanha (menos 11,7%).

O turismo, que contribuía para cerca de um oitavo do PIB português no ano passado, segundo números largamente referidos pelo sector, teve uma queda abrupta (o INE indicou que a actividade turística esteve quase parada em Maio) nos últimos meses e as decisões de vários países de imporem quarentena a quem regresse ou viaje de Portugal, como é o caso do Reino Unido, o mais importante mercado emissor estrangeiro para Portugal em 2019, não fazem prever uma recuperação relevante neste Verão.

O INE revelou hoje que as empresas exportadoras portuguesas reviram em baixa as suas expectativas de exportações de bens para 2020, apontando agora para uma redução nominal de 13,0%. Mas a situação da procura turística externa faz temer que a redução nas exportações de bens e serviços se venha a revelar bem mais gravosa.

Ainda não estão disponíveis indicadores quantitativos para Julho, apenas qualitativos, mas o Indicador de Clima Económico, depois de em Junho ter estabelecido um novo mínimo da série, em Julho recuperou, mas manteve-se bastante negativo.

Neste exercício de previsão, o cenário menos optimista utilizado foi de aumentos do PIB em cadeia de 2,2% tanto no terceiro, como no quarto trimestre, que conduziu à já referida quebra de 13,6%, que não se estranhará que peque por defeito.



Fernando Valdez

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