Economia portuguesa deve ir ao fundo no segundo trimestre

Publicado em 12/07/2020 00:46 em Análise económica

A economia portuguesa deve ter ido ao fundo no segundo trimestre, com evoluções muito negativas nos principais sectores de actividade.

A procura turística, principalmente de estrangeiros, mas também de residentes, está a cair a pique.

Apesar de nos dois primeiros meses do ano a procura turística ter acelerado, com o número de hóspedes a aumentar 13,7% e o total de dormidas a crescer 11,4%, impulsionada mais fortemente pelos residentes, com as receitas totais da hotelaria e alojamento a aumentarem 9,9% no bimestre, em Março os hóspedes baixaram 62,3% e as dormidas caíram 58,7%.

Esta tendência de forte queda em Março levou no trimestre a uma inversão dos resultados acumulados, com reduções de 17,8% nos hóspedes, de 18,0% nas dormidas e 19,7% nos proveitos totais do sector de alojamento turístico.

Em Abril, apesar de ser o mês da Páscoa, a actividade turística foi praticamente nula, com redução de 97,4% no número de hóspedes e descida de 97,0% nas dormidas. Nos quatro primeiros meses de 2020 o decréscimo das receitas do alojamento já ascendia a 48,2%

A situação não se alterou muito em Maio, com quedas de 93,9% nos hóspedes e de 95,0% nas dormidas, com as dormidas de não residentes a decrescerem 98,1%.

Um desconfinamento com calendário e etapas pré-estabelecidos, que não incluiu uma avaliação cuidadosa dos efeitos de cada etapa antes de passar à fase seguinte, nomeadamente os efeitos de transportes públicos a abarrotar em horas de ponta, transportando muitas vezes pessoas com máscaras não adequadamente colocadas, o recurso a mão de-obra precária, que não reclama de condições deficientes no local de trabalho e está muitas vezes alojada em locais sem condições sanitárias adequadas.

O facto de as etapas se terem sucedido sem monitorização adequada e sem uma avaliação correcta dos resultados no final de cada uma para introdução de medidas correctivas adequadas antes de passar à seguinte, explicará o recuo excessivo nos resultados do combate `pandemia.

Com o fim do confinamento teria de haver algum aumento de novos casos positivos, mas não na escala em que se verificou. A evolução negativa da pandemia em Portugal e as reacções de vários países, nomeadamente europeus, poderá levar a uma generalização do receio quando à segurança sanitária das visitas em Portugal.

E num ano em que o turismo global deve cair drasticamente, esses receios poderão ter um efeito devastador no turismo em Portugal.

Os indicadores coincidentes do Banco de Portugal para a actividade económica (menos 4,0) e para o consumo privado (menos 8,0) mantiveram a tendência descendente e atingiram mínimos históricos da série iniciada em Janeiro de 1978

O volume de negócios nos serviços caiu 28,58% homólogos (face ao mesmo período do ano anterior) nos três meses Março a Maio e no bimestre Abril/Maio baixou 36,06%.

Destaque para as quedas de 77,63% em Abril/Maio no alojamento, restauração e similares (69,45% no período Março a Maio) e de 46,63% nos transportes e armazenagem (menos 36,01% em Março a Maio).

As vendas do comércio a retalho caíram 15,2% no trimestre Março a Maio, com redução de 28,6% nas vendas de bens não alimentares e aumento de 1,3% nas vendas de alimentação, bebidas e tabaco.

Mas se considerarmos apenas o bimestre Abril Maio (os dois primeiros meses do segundo trimestre), as vendas totais do retalho baixam 19,9% homólogos, com descida de 34,4% no retalho não alimentar (apesar da reabertura entretanto de muitas lojas deste segmento) e cai 1,9% no comércio alimentar.

Ao contrário do que seria de esperar com o maior recurso ao trabalho e ensino à distância, as vendas de computadores, equipamentos de telecomunicações e livros em lojas especializadas baixaram 26,6% no trimestre Março/Maio e 31,7% em Abril/Maio.

No plano das vendas de bens duradouros, é de sublinhar que as vendas de veículos automóveis caíram 46,1% em Março (redução de 18,3% no primeiro trimestre), tiveram uma queda histórica de 84,6% em Abril, recuaram 71,6% em Maio e caíram 54,0% em Junho. No primeiro semestre as vendas de automóveis novos recuaram 48,2%

A produção industrial caiu 20,2% em Março/Maio e 27,7% em Abril/Maio, com a produção das indústrias transformadoras a cair 23,2% nos três meses e 30,5% no bimestre.

Considerando apenas Abril /Maio, a produção de bens de consumo baixou 31,0% (queda de 40% nos artigos de consumo duradouros, descida de 30% nos não duradouros), a produção de bens de investimento (um dos indicadores avançados sobre o investimento futuro) baixou 39,3% e a de bens intermédios (destinados a nova transformação industrial caiu 23,3%.

De salientar que a indústria de montagem automóvel, um importante sector exportador, registou uma queda de 71,7% no bimestre considerado e de 63,0% nos três meses aqui analisados.

A produção da construção o obras públicas (COP) caiu 8,8% em Maio, acentuando a tendência negativa, após uma queda de 5,6% em Abril.

No trimestre Março a Maio, a produção na construção recuou 7,7%, com quebras de 8,2% na construção de edifícios e de 6,8% nas obras públicas. No bimestre Abril/Maio a produção da COP reduziu-se 11,8%, com descida de 12,5% na construção de edifícios e baixa de 10,9% na engenharia civil (obras públicas).

O volume de negócios na indústria caiu 32,2% homólogos no período Março a Maio, com destaque para as quedas de 52,6% nos bens de investimento e de 51,6% nos bens de consumo duradouros, e diminuiu 24,7% no bimestre Abril/Maio (43,7% nos bens de investimento e 41,4% nos bens duradouros.

A facturação da indústria portuguesa para o mercado nacional caiu 18,6% nos três meses terminados em Maio (menos 22,2% nas indústrias transformadoras) e acentuou a tendência negativa no bimestre Abril/Maio, com uma queda de 24,8% (29,3% nas indústrias transformadoras,

Quanto às exportações industriais, caíram 42,4% no bimestre Abril/Maio, com redução de 42,5% nas indústrias transformadoras e com queda de 55,9% nos bens de consumo duradouros, para o que deverá ter contribuído a fabricação de veículos, que exporta mais de 98% do que produz.

Em Maio as exportações portuguesas de mercadorias caíram 39,0% e as importações recuaram 40,2%, com decréscimos significativos em todas as categorias de produtos e com os principais parceiros comerciais.

No bimestre Abril/Maio as exportações diminuíram 39,5% e as importações caíram 39,9%.

O consumo de electricidade é um indicador coincidente da actividade económica num país. Em Portugal, os dados da REN – Redes Energéticas Nacionais indicam que, em dados corrigidos pelos dias uteis e temperaturas, o consumo de electricidade recuou 1,7% em Março, caiu 13,8% em Abril, baixou 13,2% em Maio e caiu 8,8% em Junho. No primeiro semestre o consumo de electricidade diminuiu 5,2% e foi o mais baixo desde 2004.

Em Junho, o indicador de clima económico, do INE registou em média móvel de três meses (MM3M), isto é, no segundo trimestre, um novo mínimo histórico da série iniciada em Março de 1989. Os indicadores de confiança das indústrias transformadoras, dos serviços e do comércio (tanto por grosso como a retalho) atingiram também, em MM3M, novos mínimos históricos.

O indicador de confiança dos consumidores e na construção e obras públicas mantiveram a tendência de agravamento em Junho em MM3M, apesar de todos terem os indicadores referidos terem apesentado no mês passado um valor mensal menos desfavorável.

A análise feita baseia-se geralmente em números ou cálculos feitos a partir de dados do INE, excepto nos casos do sector automóvel, em que os dados são da ACAP, e nos indicadores em que é referido o Banco de Portugal.

Relativamente às perspectivas para o PIB português em 2020 são de uma queda sem paralelo nas últimas décadas.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) prevê uma queda de 11,3% do produto português, a Comissão Europeia espera uma redução de 9,8%, o Banco de Portugal antecipa uma retracção de 9,5% e o Conselho de Finanças Públicas uma recessão entre os 7,5% e os 11,8%.

Mas todos antecipam as incertezas das previsões, que podem levar a quedas mais gravosas na riqueza produzida, principalmente se houver uma segunda vaga da pandemia antes de haver cura para a Covid 19, um cenário que cada vez mais especialistas na área a saúde pública e da epidemiologia, antecipam como provável.



Fernando Valdez

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