Governo prevê quebra de 6,9% no PIB este ano

Publicado em 07/06/2020 15:22 em Análise de Conjuntura

O governo português prevê que o produto português caia 6,9% este ano, «a maior contracção das últimas décadas», e uma recuperação em 2021, com um crescimento de 4,3%, nas perspectivas macroeconómicas para 2020 e 2021 do Programa de Estabilização Económica e Social, publicado sábado em Diário da República.

A resolução do Conselho de Ministros que aprova o Programa recorda que a Comissão Europeia aponta para uma retracção do Produto mundial este ano que andará em torno dos 3,5%, que só tem paralelo na grande depressão de 1929, e que a actividade económica na Zona Euro deverá cair 7,7%, em resultado da pandemia de Covid-19.

A evolução do PIB, segundo o cenário do governo português, resultará de uma queda de 4,3% do consumo privado este ano, seguido de uma subida de 4,3% no próximo, um aumento de 3,1% do consumo público este ano, seguido de uma descida de 0,8% no próximo, e uma contracção de 12,2% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, investimento) em 2020, para crescer 6,1% em 2021.

Admite que as exportações de bens e serviços caiam este ano 15,4% e aumentem 8,4% no próximo e que as importações recuem 11,4% em 2020 para crescerem 7,0% no próximo ano.

Daqueles números, resultam para este ano contributos negativos de 5,1% da procura interna e de 1,8% da procura externa, que no próximo ano se inverterão, para contributos positivos de 3,8% e 0,4%, respectivamente.

A taxa de desemprego deverá aumentar este ano para 9,6% e abrandar em 2021 para 8,7%, na perspectiva do governo.

O programa inclui medidas de apoio ao emprego, aos desempregados e de protecção ao rendimento das pessoas, à formação e requalificação profissional, um amplo leque de medidas de apoio às empresas, designadamente às pequenas e médias e do sector social, aos equipamentos e aos profissionais da cultura, à retoma na área do turismo, a obras públicas e infra-estruturas e reabilitação de habitação, aos sectores de transportes.

Aponta, ainda, para medidas de reforço do Serviço Nacional de Saúde, à digitalização do ensino, de combate à pobreza, de apoio alimentar a pessoas carenciadas, de protecção ao arrendamento habitacional, e um conjunto de regimes de reforço e simplificação da administração pública.

Para o autor desta notícia, parece estranho que, numa altura de enormes incertezas quanto à evolução da pandemia, mas também da economia, sem se saber se virão novos surtos de Covid-19, nomeadamente no próximo Outono/Inverno, sobre quando haverá vacinas e ou medicamentos eficazes para o Covid-19, o governo, na senda do que têm feito instituições internacionais, avance com previsões à décima.

A experiência mostra que estas previsões à décima geralmente falham, mesmo em tempos da dita normalidade, e que é mais prudente avançar com intervalos de previsão.

Várias dúvidas se põem:

Em primeiro lugar, como vai evoluir uma pandemia provocada por um vírus em relação ao qual se multiplicam as dúvidas e incógnitas;

Em segundo, qual o nível de sequelas para oi tecido empresarial deste desabar da actividade económica, qual o peso de falências e encerramento de empresas, qual a evolução do desemprego, questões também interligadas com a primeira dúvida.

Em terceiro, qual o impacto na decisão sobre deslocações das notícias que surgiram durante a pandemia de pessoas retidas semanas num país estrangeiro sem conseguirem regressar ao de residência (muitas vezes com o dinheiro a esgotar-se, a dormirem em aeroportos e com dificuldades de alimentação), ou fechadas em navios de cruzeiro que não conseguiam aportar.

Mas também até que ponto se vai manter e generalizar o hábito de reuniões contactos virtuais, por Internet - que já se vinha instalando antes da pandemia -, de substituir muitas reuniões internacionais de multinacionais, entre quadros das empresas e/ou com parceiros ou clientes.

Em quarto lugar, o empobrecimento relativo, muitas vezes por questões relacionadas com desemprego ou subemprego e dívidas contraídas, de pessoas das camadas médias que viajam com mais frequência.

Estas duas últimas questões, condicionam fortemente a retoma do turismo, que em Portugal tem um peso de cerca de um oitavo do PIB, mas também o consumo privado interno e o consumo e investimento em países clientes, para onde exportamos muito, e que foram fortemente afectados pela crise.

Por todas estas razões – e embora não me sinta capaz de propor um intervalo de previsão diferente -, parece-me que os números avançados serão algo optimistas, não só em relação ao ano em curso, mas eventualmente também em relação ao próximo, sendo certo que quanto maior for a queda inicial mais facilmente se atinge uma retoma de maior dimensão em percentagens, mas só aparentemente mais favorável,

Fernando Valdez

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