Economia portuguesa caiu 2,3% homólogos no I trimestre, mas o pior está para vir

Publicado em 30/05/2020 00:31 em Análise de Conjuntura

A economia portuguesa caiu 2,3% homólogos e 3,8% em cadeia (face ao trimestre anterior) no primeiro trimestre de 2020, de acordo com dados do INE, mas os indicadores qualitativos e quantitativos já disponíveis e o contexto internacional indicam que o pior estará ainda para vir.

A redução homóloga do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2020 é a mais intensa desde o primeiro trimestre de 2013, em tempos troika, mas todas as previsões internacionais indicam que em 2020 será largamente ultrapassada a queda de 4,1% registada na riqueza produzida no país em 2012.

O INE salienta que o comportamento da economia portuguesa no primeiro trimestre reflecte o impacto da pandemia Covid-19, que se fez sentir de forma significativa em Março, último mês do trimestre, recordando que a 16 de Março encerraram as escolas e universidades e dia 18 foi decretado o estado de emergência, que ditou o encerramento temporário de várias actividades.

O mês de Abril marca uma profunda degradação da situação económica do país, que tudo indica que se tenha prolongado em Maio.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) adianta que a procura interna deu um contributo negativo de menos 1,1 pontos percentuais (pp) para a evolução homóloga do PIB e a procura externa líquida (exportações de bens e serviços menos importações) contribuiu com menos 1,2 pp.

Em cadeia, a procura externa líquida deu um contributo de menos 1,8 pp para a queda do PIB no primeiro trimestre e a procura interna contribuiu com menos 2,0 pp.

Os dados do INE indicam que a queda de 1,1% na procura interna ficou a dever se a uma redução de 2,5% no investimento, uma descida de 1,0% no consumo privado e a um crescimento de 0,5% no consumo público

A queda do investimento no primeiro trimestre foi determinada principalmente pelo recuo de 6,9% da formação bruta de capital fixo (FBCF) em outras máquinas e equipamentos, que pesou 23,6% na FBCF total, e em menor grau pela redução de 0,2% no investimento em propriedade intelectual (peso de 15,8% na FBCF total), enquanto o investimento em construção, que significa mais de metade (50,4%) da FBCF, progrediu 2,6% e pelo aumento de 1,5% no material de transporte.

O INE sublinha que que o aumento da FBCF em equipamentos de transporte reflecte a importação de aeronaves em regime de locação financeira, que mais do que compensou a queda na componente de veículos automóveis.

Do lado da procura externa, as exportações caíram 4,9%, reflectindo uma redução de 2,7% na venda de bens ao exterior e uma descida de 9,6% nos serviços, influenciada por uma forte redução da actividade turística em Março, com uma descida de 62,6% dos hóspedes estrangeiros e uma queda de 59,2% nas dormidas de não residentes, quando nos dois primeiros meses se registavam acréscimos.

Do lado das importações, verificou-se uma queda de 2,0% no trimestre, muito menos pronunciada do que a das exportações, com queda de 1,4% nas compras de bens ao estrangeiro e uma descida de 5,3% nas importações de serviços.

O Valor Acrescentado Bruto (VAB) baixou 1,7%, influenciado pela quebra de 4,1% do VAB do comércio e reparação de veículos e do alojamento e restauração, que representou 19,8% do VAB total, o decréscimo de 3,3% do VAB industrial, que pesa 14,1% do VAB, a descida de 2,8% na energia, água e saneamento, que pesa 3,6% no VAB, a redução de 1,6% nos outros serviços, com um peso de 29,4% no total, e a queda de 1,3% nos transportes, armazenagem e comunicações, que representam 8,6% do VAB.

A construção, que pesa 4,6% no VAB, teve um aumento de 1,9%, as actividades financeiras, seguros e imobiliárias, que pesam 17,6% no VAB, registaram um aumento de 0,6% no Valor Acrescentado Bruto, e a agricultura, silvicultura e pescas, que pesam 2,4% naquele indicador, tiveram um acréscimo de 2,7% no VAB.

O FMI apresentou em meados de Abril previsões que apontavam para uma queda de 8% da economia portuguesa em 2020, com quebras de 6,6% na União Europeia e 7,5% na Zona Euro, um cenário base com muitos riscos e que se poderá revelar pior, segundo o Fundo.

Os indicadores coincidentes do Banco de Portugal para a actividade económica e para o consumo privado apresentaram em Abril as maiores quedas mensais desde o início da série, publicada desde 1978, com o primeiro a apresentar o mais baixo valor desde Junho de 2013 e o segundo um mínimo desde Março de 2013.

O indicador de Actividade Económica, do INE, apresentou em Abril a maior redução mensal e atingiu um novo mínimo da série e o indicador de confiança dos consumidores observou a maior redução mensal e atingiu um mínimo desde Maio de 2013, o indicador de confiança da indústria transformadora teve a maior queda mensal e atingiu um mínimo da série, com os indicadores para os serviços e o comércio a fixarem se em novos mínimos, enquanto o da construção teve a queda mensal mais intensa da série.

Os dados relativos a Abril revelam uma interrupção quase total na actividade turística em Portugal, com redução 97,1% no total de hóspedes e de 96,7% nas dormidas, registou-se uma queda de 95,7% na produção e montagem de veículos em Portugal, um importantíssimo sector exportador, ocorreu uma descida sem precedentes de operações bancárias e bverificou-se uma redução de 21,6% nas vendas do comércio a retalho (descida de 34,3% nas vendas de bens não alimentares).

Nos indicadores qualitativos disponíveis para Maio, o indicador de confiança na indústria transformadora caiu acentuadamente face ao mínimo da série estabelecido em Abril, sendo a mesma a tendência do indicador de confiança nos serviços, que baixou o mínimo atingido no mês passado.

Em Maio, a confiança no comércio melhorou face ao mínimo atingido em Abril, devido às expectativas de aumento da actividade nos próximos três meses, e na construção e obras públicas o indicador melhorou mas manteve-se muito negativo (menos 29,2).

O indicador de confiança dos consumidores tornou-se menos negativo devido às expectativas de melhoria da situação financeira da família e da situação económica do país e de compras importantes nos próximos 12 meses.

Expectativas dos consumidores que se poderão revelar pouco consistentes com um desemprego a aumentar, o lay-off a manter-se para muitos, o espectro de falências de muitas pequenas e algumas médias empresas e um ano turístico que se adivinha desastroso (atentemos no grande número de anulações de reservas na hotelaria até Agosto e no lento descolar da actividade de muitas companhias aéreas).

Além disso, antevêem-se dificuldades acrescidas para consumidores e empresas, que pediram moratórias no crédito, designadamente para habitação ou adiamento no pagamento de contribuições ao Estado, que terão de as pagar.

Mas o facto de muitos dos principais emissores de turistas para Portugal e de os principais compradores outros serviços e de bens ao nosso país se encontrarem em situações complicadas devido à crise do coronavírus (como é o caso de Espanha, França, Itália, Reino Unido e, mesmo, Alemanha) ou pela queda de preços do petróleo (Angola),

O que pode ser agravado pelas crescentes tensões internacionais, particularmente entre os Estados Unidos e a China, mas não só, que serão agravadas pelas manifestações de desespero de um presidente norte-americano em perda de popularidade pela sua gestão da pandemia e que começa a ter maior probabilidade de perder as eleições.

Tudo isto num contexto que já é de grave crise económica global e de recessão profunda num grande número de países.

Adivinha-se, por isso, um calvário ainda prolongado antes de Portugal regressar a níveis de riqueza superiores aos de 2019.



Fernando Valdez

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