Vertente externa muito negativa para economia portuguesa

Publicado em 16/05/2020 22:15 em Conjuntura Internacional

Os principais países clientes estrangeiros de Portugal, quer na compra de bens, quer no turismo (serviços), enfrentam quedas acentuadas dos respectivos PIB, que se vem juntar a uma actividade interna muito desfavorável, já no essencial descrita na análise feita ontem, sexta-feira, neste sítio Internet.

O Produto Interno Bruto (PIB) dos países da Zona Euro caiu no primeiro trimestre em média 3,2% homólogos (face a idêntico trimestre do ano passado) e 3,9% em cadeia (comparando com o trimestre anterior), enquanto no conjunto da União Europeia (UE) a riqueza produzida baixou 2,6% homólogos e 3,3% em cadeia, indicou o Departamento de Estatísticas das Comunidades Europeias (Eurostat).

No Reino Unido, um parceiro económico importante para Portugal, em particular no turismo, mas também no comércio externo de bens, o produto caiu 1,6% homólogos e 2,0% em cadeia, segundo a mesma fonte.

Considerando apenas os valores homólogos, a França teve a maior queda do PIB no primeiro trimestre (menos 5,4%), seguindo-se a Itália (menos 4,8%), e a Espanha e Eslováquia (menos 4,1%), enquanto na Bélgica a queda foi de 2,8% e a Alemanha recuou 2,3%, ligeiramente menos do que Portugal (menos 2,4%).

Mantiveram a trajectória ascendente da riqueza produzida nos três primeiros meses de 2020 a Roménia (mais 2,7%), a Lituânia (2,5%) a Bulgária (2,4%), a Hungria (2,0%), a Polónia (1,6%), Chipre (0,8%), a Suécia (0,5%), a Finlândia (0,4%) e a Dinamarca (0,3%), segundo o Eurostat. A maioria daqueles países não pertence à zona euro.

O Eurostat estima que os Estados Unidos ainda cresceram 0,3% homólogos, mas as notícias sobre a economia norte-americana, nomeadamente o emprego, o rendimento e o consumo, indiciam que o segundo trimestre terá um comportamento claramente negativo.

Os dados do comércio externo de Março, do INE, por ordem da importância como parceiros comerciais, indicam que as exportações de bens para Espanha baixaram 16,2%, para a França recuaram 19,2%, para a Alemanha caíram 14,9%%, para o Reino Unido diminuíram 21,3%, para os Estados Unidos cresceram 5,6%, para a Itália recuaram 22,5%, para a Holanda desceram 2,7%, para a Bélgica regrediram 32,3% e para Angola caíram 11,2%.

O INE indica que em Março o valor das exportações portuguesas se retraiu 13,0%

Quanto às dormidas de estrangeiros em Março em Portugal, o INE indica que baixaram 59,2% e os proveitos totais (incluindo os turistas residentes) caíram 60,2%.

Em relação aos principais mercados emissores (com base nos dados de 2019) os 16 maiores registaram quedas em Março.

Por ordem de importância (em 2019), as dormidas de britânicos em Março baixaram 55,2% homólogos (face ao mesmo mês de 2019), as de alemães recuaram 57,3%, as de espanhóis regrediram 67,3%, as de franceses caíram 60,4%, as de brasileiros diminuíram 56,6%, as de residentes nos Estados Unidos reduziram-se 67,5%, as de holandeses recuaram 47,9%, as de irlandeses desceram 59,1%, as de italianos tiveram uma queda de 76,5% e as de belgas tombaram 61,9%, apenas para citar os que no ano passado foram os 10 maiores mercados emissores.

O prejuízo para a economia portuguesa é muito maior se contabilizarmos os gastos dos estrangeiros com refeições, em deslocações (muitas vezes em automóveis de rent-a-car), visitas a museus e monumentos e compras diversas.

Relativamente a Portugal, apesar de até agora - esperemos que assim continue – a epidemia ter mostrado menor severidade do que em muitos outros países, não é de esperar uma recuperação significativa da procura turística, não só porque as viagens de avião e as passagens pelos aeroportos são consideradas de risco e há hoje maior receio de viajar, mas também porque em muitos países houve aumentos de desemprego e perdas de rendimento.

Além disso, os muitos casos de pessoas de quase todas as nacionalidades que viajaram e depois não conseguiam regressar aos países de origem, em particular depois do corte de ligações aéreas e encerramentos de fronteiras, além de situações kafkianas ocorridas com cruzeiros, não são de molde a encorajar as pessoas a viajar enquanto não houver vacinas ou tratamentos fiáveis para o Covid-19 e, seguramente, para além disso em muitos casos.

As reuniões de negócios, apresentações, as reuniões políticas internacionais, as conferências de imprensa e muitos outros eventos que já tinham começado a realizar-se por videoconferência mesmo antes da pandemia, tenderão a realizar-se muito mais frequentemente por meios electrónicos.

A vida e a economia voltarão seguramente à normalidade, talvez com algumas alterações introduzidas pela pandemia. Só que ninguém sabe quando isso acontecerá.

Mas organizações internacionais como o FMI, antecipam que a quebra do PIB, embora progressivamente menos forte a partir de terceiro trimestre, se manterá até ao primeiro trimestre de 2021.

Mas os alertas são para riscos naquele cenário base, todos eles no sentido descendente.



Fernando Valdez

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