Covid-19 provoca queda do PIB português no primeiro trimestre

Publicado em 15/05/2020 22:45 em Análise de Conjuntura

O Produto Interno Bruto português caiu no primeiro trimestre deste ano 2,4% homólogos (face ao mesmo período do ano passado) e 3,9% em cadeia (face ao trimestre precedente), revelou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A queda homóloga é a maior desde os anos de 2012 e 2013, em tempos de troika e do Governo Passos Coelho/Portas, mas reveste-se de particular gravidade pelo facto de ser quase inteiramente devida ao comportamento da economia no mês de Março, dado que os indicadores disponíveis apontam para um comportamento positivo nos dois primeiros meses do ano, e por em Abril se ter aprofundado uma crise que se deverá manter, não sabemos até quando.

A análise da evolução económica revela uma tendência aproximadamente normal do primeiro bimestre de 2020 e um afundamento económico brusco em Março, que tudo indica que se terá acentuado em Abril e prolongado para Maio.

O INE revela que a estimativa preliminar do PIB indica que a contracção homóloga do produto português decorre de um contributo negativo de 1,4 pontos nas exportações líquidas (exportações menos importações) de bens e serviços e de um contributo de menos 1,0 pontos da procura interna.

O contributo negativo das exportações líquidas deve-se principalmente a uma queda de 5,1% nas exportações de bens e serviços, sobretudo justificada pela queda nas exportações de serviços, em consequência da forte contracção da procura turística do exterior, adianta o INE.

A variação do PIB em cadeia (face ao trimestre anterior) de menos 3,9%, decorre de um contributo negativo de 2,0 pontos percentuais da procura externa líquida e de -1,9 pontos da procura interna

Em Fevereiro, em Média Móvel de 3 Meses (MM3M), mantinham-se claramente positivos o indicador de actividade económica, embora em abrandamento, a produção industrial, a acelerar há quatro meses, a produção na construção (em desaceleração) o volume de negócios nos serviços, em ritmo crescente, as vendas retalhistas, com grande aceleração, e as dormidas na hotelaria, com forte crescimento, indicou o INE.

Apenas o volume de negócios na indústria apresentou uma ligeira redução homóloga em Fevereiro em MM3M, que representa a média dos três meses concluídos no mês em análise.

A Síntese Económica de Conjuntura, do INE, indica que as vendas de gasolina, embora moderadas, aumentaram o ritmo de crescimento em Fevereiro, as operações na rede Multibanco aumentaram em valor, o crédito ao consumo manteve-se em nível alto e as vendas de automóveis de passageiros mantiveram-se positivas, enquanto o indicador de investimento continuou positivo, ainda que com uma quebra na FBCF em máquinas e equipamentos.

Em Fevereiro, as exportações de bens ainda aumentaram 0,9% e as importações cresceram 3,4%, antes de em Março se afundarem, com as exportações de mercadorias a registarem uma queda homóloga de 13,0% e as importações a reduzirem-se 11,9% (INE).

Nos dois primeiros meses, as dormidas na hotelaria aumentaram 11,4%, dinamizadas pelo Carnaval e pela procura de residentes, ainda que as de estrangeiros ainda tenham aumentado 7,8%, e as receitas cresceram 9,9%, adianta o INE.

Os números do INE revelam que em Março, mês de medidas de contenção e de declaração do primeiro estado de emergência, o número de hóspedes no alojamento nacional caiu 62,3% e as dormidas 58,7%, para menos de metade, e a facturação caiu 60,2%, com decréscimos muito acentuados nos principais mercados externos e recuo em todas as regiões de turismo nacionais.

Através de um questionário adicional realizado em Abril e na primeira semana de Maio a 4600 estabelecimentos que representam 90,9% da oferta, 78,9% dos que responderam indicaram ter cancelamento de reservas agendadas para os meses de Março a Agosto deste ano.

O volume de negócios nos serviços caiu 17,0% homólogos em Março, com redução em todos os sectores, mas particularmente forte no alojamento e restauração, com queda para menos de metade.

Segundo o INE, as vendas do comércio a retalho baixaram 5,6% em Março, o volume de negócios na indústria caiu 8,7% e a produção industrial reduziu-se 7,2%, a produção da construção (que não foi parada com o estado de emergência) baixou 0,6% e as vendas de comércio a retalho baixaram 5,6%.

As vendas de veículos novos em Portugal atingiram quebras históricas de 56,6% em Março e 84,6% em Abril e a produção automóvel em Portugal caiu 95,7% em Março, com paralisação total da montagem de comerciais ligeiros, queda de 94,8% nos ligeiros de passageiros e redução de 95,7% nos pesados, o que significa um enorme rombo nas exportações nacionais, tendo em conta que o sector exporta bastante mais de 90% do que produz.

As perspectivas para o resto do ano são negras e é de esperar que a recessão se aprofunde e a queda do produto atinja níveis muito preocupantes, que ninguém saberá antecipar com rigor.

Com muitas pessoas com fortes reduções de rendimento ou mesmo sem rendimento, por razões que vão desde o desemprego ao lay-off, com a manutenção (justificada) de muitas restrições que, conjugadas com a queda abrupta do poder de compra, poderão inviabilizar pequenas e médias empresas de sectores que vão do alojamento e restauração a pequenos comércios, muitas dessas empresas podem encerrar arrastando na queda empresas de sectores industriais e de serviços mais fragilizadas.

A tudo isto se junta uma perspectiva bastante negativa para as exportações de bens e serviços, com os principais importadores de mercadorias produzidas em Portugal a enfrentaram fortes crises económicas, tal como os principais mercados externos do turismo português, o que faz prever uma forte queda também nas exportações tanto de serviços, como de bens.



Fernando Valdez

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