CE admite quebra 6,8% do PIB português em 2020

Publicado em 06/05/2020 22:43 em Análise de Conjuntura

A Comissão Europeia (CE) admite que o PIB português caia 6,8% em 2020 e inverta a tendência no próximo ano, com um aumento de 5,8%, indicam as Previsões Económicas de Primavera da CE, hoje divulgadas.

Como referência, no ano de 2009, em plena crise financeira, o PIB português caiu 3,1% e no auge da política de austeridade do governo PSD/CDS de Passos Coelho e da Troika, a criação de riqueza em Portugal caiu 4,1%, de acordo com os números das Contas Nacionais, do INE.

A Comissão Europeia antecipa que, «dada a severidade deste choque mundial sem precedentes», é agora «bastante claro que a União Europeia entrou na mais profunda recessão económica da sua história», salientando que as medidas de contenção da pandemia na maioria dos estados membros a partir de meio de Março provocaram a hibernação da economia e a queda do PIB deve acentuar-se no segundo trimestre.

A CE estima que o PIB português recuou 0,3% no primeiro trimestre, mas aprofundará essa queda para 12,5% no trimestre em curso, antes de começar a moderar a expressão dessa queda até ao primeiro trimestre de 2021 e regressar ao crescimento a partir do segundo trimestre do próximo ano.

A Comissão prevê para Portugal em 2020 que a procura interna desça 5,1%, o consumo privado caia 5,8%, o investimento recue 8,6%, o investimento público aumente 2,3%, as exportações de bens e serviços caiam 14,1%, as importações baixem 10,3%, o emprego recue 3,4% e o desemprego aumente para uma taxa de 9,7%

As Previsões Económicas de Primavera antecipam que o PIB da União Europeia (UE) caia 7,4% este ano e cresça 6,1% no próximo, enquanto na zona euro a queda da riqueza produzida deve atingir 7,7% em 2020, mas aumentar 6,3% em 2021.

A nível trimestral, comparando com trimestres homólogos de 2019, o pico da recessão será no segundo trimestre, em curso, tanto na UE (quebra de 14,2%) como na zona euro (redução de 14,9% do PIB), passando a ser progressivamente menos negativa nos três trimestres seguintes e começando a recuperar no segundo trimestre de 2021, segundo a CE.

Quanto aos principais parceiros económicos de Portugal, segundo a CE, o produto deverá cair este ano 9,4% em Espanha, 6,5% na Alemanha, 8,2% em França, 9,5% na Itália e 8,3% no Reino Unido, este último que este ano deixou a UE.

Preocupante para Portugal são as previsões que as importações totais de bens e serviços da Espanha desçam 21,1% este ano, as alemãs baixem 9,2%, as francesas recuem 11,8%, as italianas diminuam 13,6% e as britânicas baixem 9,9%,

De salientar que as previsões da Comissão Europeia de recuo do PIB este ano são comuns a todos os países da União Europeia, com maior intensidade na zona euro, e de que o mesmo comportamento recessivo será comum ao Reino Unido, Estados Unidos e Japão, tal como o aumento do desemprego é transversal a todos os países.

A Comissão admite que há várias incertezas que podem alterar o cenário base apresentado, nomeadamente o facto de alguns dos Estados membros terem sido mais severamente afectados pelo Covid-19 e terem menos capacidade de resposta económica e porque as divergências entre Estados se enraizarem se as políticas nacionais não estiverem coordenadas e não houver uma forte resposta comum ao nível da União Europeia, o que pode distorcer o mercado interno e ameaçar a estabilidade da zona euro.

Acrescenta que o período de pandemia pode também desencadear mudanças mais drásticas e permanentes na cooperação internacional que afectaria especialmente economias abertas como as da UE, a pandemia pode deixar feridas permanentes, como um grande número de falências com efeitos graves no mercado de emprego, que não são tidas em conta no cenário considerado.

O autor destas linhas julga que o cenário não terá também incluído a possibilidade de novos surtos da doença que obriguem a novas restrições e que afectem a economia dos países.

Além disso, a possibilidade de desentendimentos graves entre Estados membros [cito a recente posição do tribunal constitucional alemão e a irredutibilidade do governo holandês], poderão ter consequências nefastas na unidade da UE, como advertiu o comissário europeu para o Mercado Interno, Thierry Breton, em entrevista ao Expresso e à MEGA TV (Grécia), segundo o sítio noticioso EurActiv.com.

«O mercado interno não pode ser mantido se nós apenas salvarmos uma ou duas indústrias de um ou dois estados membros. Estamos todos no mesmo barco e para nós, esse barco é a Europa», advertiu.

Segundo e Expresso, o comissário francês lembra que 50% das exportações alemãs são para países da União Europeia e que no caso da Holanda a percentagem supera os 60%.

«Se não houver mercado interno não há indústria alemã» e «a indústria holandesa morre», avisou, citado pelo Expresso.

A Comissão Europeia, na síntese das Previsões Económicas de Primavera, também adverte para o risco de não haver uma resposta comum forte ao nível da União Europeia.

A posição intransigente da Holanda, acompanhada no essencial pela Alemanha, pode afectar a recuperação dos países do Sul, economicamente mais fragilizados e muito afectados pela pandemia.

Quanto a pôr em causa o mercado único, a zona euro e a moeda única, tenho fortes dúvidas sobre a coragem política dos dirigentes desses países para desencadearem um braço de ferro que leve a isso. Aliás, alemães e holandeses parecem ter a mesma dúvida, ou talvez certeza.

Fernando Valdez

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