Economia portuguesa deve recuar 8% em 2020, FMI

Publicado em 14/04/2020 22:38 em Análise económica

A economia portuguesa deverá recuar 8,0% em 2020 devido às consequências do COVID-19, após uma subida do PIB em 2019, e a taxa de desemprego poderá mais do que duplicar, para 13,9% este ano, segundo as previsões económicas do FMI, hoje divulgadas.

A previsão do FMI de que a economia portuguesa poderá crescer 5,0% em 2021, deixaria a riqueza produzida no próximo ano em Portugal 3,4% abaixo do PIB do ano passado.

O FMI afirma que o PIB mundial deverá cair 3,0% este ano e enfrentar a pior recessão desde a grande depressão do final dos anos vinte do século passado e que deverá ser mais atingida do que durante a crise financeira de há pouco mais de uma década, mas adverte que a recuperação parcial que prevê para 2021 não será suficiente para repor a tendência de crescimento pré-vírus.

As estimativas da organização monetária internacional indicam que o PIB europeu cairá 6,6% no ano em curso, com redução de 7,5% na zona euro (menos 10,0% na Grécia, menos 9,1% em Itália, menos 7,5% na Holanda, menos 7,2% em França. menos 7,0% na Alemanha).

Outros países europeus, incluindo alguns da União Europeia, resistem melhor à crise, com quedas do PIB de 2,8% em Malta, de 3,1% na Hungria, de 4,6% na Polónia, de 5,0% na Turquia ou de 5,5% na Rússia.

No cenário base do FMI, na zona euro o desemprego sobe para 10,4% este ano e atenua-se para 8,9% no próximo. Com maior ou menor expressão, o desemprego aumenta este ano em todos os países europeus. Nalguns casos mais do que duplica de 2019 para 2020: de 5,0% para 12,1 na Irlanda, de 6,5% para 13,9% em Portugal, de 5,0% para 12,1% na Irlanda, de 3,3% para 9,9% na Polónia e de 3,7% para 13,0% na Noruega, registando-se na Rússia uma previsão de subida pouco expressiva (de 4,6% para 4,9%).

Segundo as estimativas do FMI, a Índia deverá crescer 1,9% em 2020, a China 1,2% e a Indonésia 0,5%, mas outra grande economia asiática, o Japão, vê a riqueza produzida cair 5,2%, enquanto o PIB da Austrália diminuir 6,7%.

O FMI antecipa que no ano em curso o PIB dos Estados Unidos desça 5,9%, o do Canadá recue 6,2%, o do Brasil caia 5,3%, o da Argentina recue 5,7% e o do México baixe 6,6%, com quedas em todos os países do Continente americano

O cenário base em que assentam os cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI) pressupõe que a pandemia enfraquece na segunda metade de 2020, que as restrições impostas podem ser gradualmente ultrapassadas e que a actividade económica normaliza em 2021, indica.

Mas o Fundo adverte que há uma «extrema incerteza» quanto à previsão global porque o resultado económico depende de factores que interagem de formas que são difíceis de prever.

Entre estas, inclui a evolução da pandemia, a intensidade e eficácia dos esforços de contenção, a extensão das disrupções de fornecimentos, as repercussões do dramático aperto nos mercados financeiros globais, mudanças nos padrões de despesa, alterações comportamentais (como as pessoas deixarem de ir a centros comerciais ou de utilizarem transportes públicos) efeitos na confiança dos agentes económicos e volatilidade dos preços das matérias-primas.

O FMI destaca que muitos países enfrentam uma crise multifacetada, que inclui um choque de saúde, disrupções económicas internas, quedas abruptas da procura externa, alteração dos fluxos de capital e colapso de preços de matérias primas.

Isto é, os riscos são tantos e tão altos que o próprio FMI não evita passar a ideia de que o cenário base que utiliza poderá ser muito optimista.

E no caso português, com as fragilidades que afectam a economia nacional, nomeadamente com a grande dependência do turismo e das exportações de alguns bens, o risco de uma recuperação difícil é grande, tanto mais que as principais potências do União Europeia recusam uma solidariedade que seria exigível a uma comunidade económica numa situação deste tipo.

O FMI não o cita, mas o autor destas linhas gostaria de destacar o risco de os países trocarem a aposta total na saúde e na preservação de vidas por alívios das medidas de contenção por questões económicas, que podem levar à reactivação de graves surtos de Covid-19 que muitos países enfrentaram e ainda enfrentam.

Tanto mais que há especialistas que defendem que, por insuficiência de realização de testes, o número de infectados está muito subavaliado num grande número de sociedades e que muitos infectados assintomáticos continuam a «distribuir» o novo coronavírus. Uma opinião que, pessoalmente, tendo a partilhar.

Neste aspecto, há que destacar a advertência do FMI de são essenciais políticas efectivas para evitar piores consequências, nomeadamente para reduzir contactos e proteger vidas, que devem ser vistas como um investimento de longo prazo na saúde humana e económica.

A prioridade imediata é conter o surto de Covid-19, especialmente aumentando as despesas de saúde para reforçar a capacidade e recursos do sector de cuidados de saúde e, simultaneamente, adoptar medidas para reduzir o contágio, acrescenta.

Mas sustenta, também, que as políticas económicas devem amortecer o impacto do declínio da actividade das pessoas, empresas e sistema financeiro, reduzir as cicatrizes do inevitável severo abrandamento e assegurar que a recuperação económica pode iniciar-se rapidamente logo que a pandemia se desvaneça.

O FMI prevê que as economias avançadas tenham no ano em curso um aumento de 1.2% nas exportações e de 1,5 %nas importações de bens e serviços, enquanto as economias emergentes e em desenvolvimento verão as exportações de bens e serviços aumentar 0,8% e as importações recuar 0,8%.

Este ano, os preços do petróleo poderão recuar 10,2% e os das restantes matérias primas devem encarecer 0,8%, sempre segundo o FMI.



Fernando Valdez

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