Banco Portugal admite que economia portuguesa caia entre 3,7% e 5,7%

Publicado em 27/03/2020 00:22 em Análise económica

O Banco de Portugal estima que o Produto Interno Bruto (PIB) português sofra uma quebra que poderá situar-se entre 3,7% (cenário base) e 5,7%, num cenário que denomina de adverso, nas previsões do seu Boletim Económico de Março, que têm em conta as consequências económicas da pandemia de Covid-19.

Subjacente ao cenário base está uma quebra de 1,8% no PIB mundial e uma contracção de 10,3% no comércio mundial, enquanto o cenário adverso pressupõe uma redução de 4,6% da riqueza produzida no planeta e uma queda de 16,9% nas trocas comerciais internacionais.

O cenário base pressupõe uma contracção da actividade económica na primeira metade do ano e especialmente acentuada no segundo trimestre de 2020 e uma retoma da trajectória de crescimento no final do ano em curso.

No cenário adverso, o banco central nacional assume que o impacto económico da pandemia a nível mundial é mais significativo e que se verifica uma paralisação mais prolongada da economia em vários países.

Observa que o alargamento do número de economias afectadas pela pandemia geras maiores disrupções nas cadeias de valor globais e reforça os elevados níveis de incerteza e destaca os dois cenários apenas diferem na magnitude da recessão prevista.

A queda da produção adiantada reflecte, do lado da procura, o adiamento de despesas de consumo e investimento, o aumento da aversão ao risco dos agentes económicos, a redução do rendimento das famílias e a incerteza e, do lado da oferta, a redução do tempo de trabalho por motivo de doença, da assistência à família ou da quarentena, indica o banco central.

Aponta, também, o impacto directo sobre as despesas em serviços, em particular no turismo, transportes e serviços recreativos e culturais.

O Banco de Portugal sublinha que a magnitude e duração do choque económico adverso depende das políticas adoptadas pelas autoridades [portuguesas e europeias], não só para assegurar as melhores respostas em termos de saúde pública como para mitigar o impacto económico decorrente da propagação do vírus e das medidas restritivas.

Assinala que os indicadores disponíveis revelam que a disseminação do novo coronavírus por um número crescente de países representa um choque negativo de grandes proporções sobre a economia, não só na China e noutras economias asiáticas, e que os PMI sugerem uma deterioração na actividade das «economias avançadas» no mês de Fevereiro, tanto ao nível dos serviços como na indústria.

Acrescenta que os PMI (purchasing managers index), um indicador avançado, não captam ainda o pleno impacto da pandemia [que se acentuou em Março].

O banco central português realça que a incerteza em torno dos cenários é exacerbada tendo em conta a evolução recente da pandemia, as medidas de confinamento adoptadas pela generalidade dos países, a elevada perturbação dos mercados financeiros e as medidas de política que têm vindo a ser sucessivamente reforçadas.

O Banco de Portugal prevê que em 2020 o consumo p0riuvado caia 2,8% no cenário base (-4,8% no cenário adverso), o consumo público cresça 2,1% (3,0% no adverso), a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, investimento) se reduza 10,8% ( 14,9% no pior cenário), a procura interna caia 3,6% (-5,5%), as exportações caiam 12,1% ( 19,1% no caso mais desfavorável) e as importações baixem 11,9% (-18,7%).

O emprego cai 3,5% no cenário base e reduz-se 5,2% no adverso, enquanto o desemprego aumenta para 10,1% e 11,7%, respectivamente.

O aumento do consumo público previsto pelo Banco Central é explicado pela necessidade de medidas públicas para fazer face à pandemia, nomeadamente na área das despesas públicas de saúde.

O prestigiado Instituto de Conjuntura alemã Ifo, ligado à Universidade de Munique, destacava hoje que as expectativas dos exportadores alemães se deterioraram drasticamente em Março, baixando para um valor de menos 19,8 pontos, a maior queda em três décadas e o valor mais baixo desde Maio de 2009, afectando particularmente as indústrias automóvel.

Na opinião do autor destas linhas, é necessário sublinhar a influência da redução do rendimento de muitas famílias e os efeitos do aumento do desemprego, do lado da procura, e do lado da oferta o encerramento temporário de muitas empresas e estabelecimentos (que nalguns casos pode tornar-se definitivo) e a redução de produção de empresas que, mantendo-se abertas, dispõem de menos pessoal para laborar e são em muitos casos afectadas pela redução da procura.

Do lado da procura e da oferta, entram os casos de trabalhadores afectados pelo Covid-19 e que deixam temporariamente de trabalhar.

Para além da situação alemã, revelada pelo Ifo, a gravidade da situação de saúde em Itália, Espanha (primeiro parceiro de Portugal), França, Itália e Reino Unido, que representam uma grande parte do comércio externo português, e do facto de ainda não se conhecerem medicamentos nem vacinas comprovadamente eficazes contra o Covid 19, leva a que não se possa calcular por quanto tempo se manterá uma situação grave da pandemia, a profundidade dos seus efeitos e a que não se possa saber se o Covid 19 voltará depois a ressurgir, quando e com que gravidade.

Fernando Valdez

Ainda sem comentários