PIB português acelerou I trimestre mas perspectivas são incertas

Publicado em 01/06/2019 21:39 em Opinião económica

O Produto Interno Bruto (PIB) português acelerou no primeiro trimestre, para um crescimento homólogo de 1.8%, mas as perspectivas para 2019 parecem muito incertas, não só pelas nuvens negras que pairam a nível internacional como pela análise dos números do INE.

Numa primeira análise os números parecem encorajadores: o crescimento homólogo do PIB acelera no primeiro trimestre de 2019 face ao verificado no último trimestre de 2018, em que muitos (função pública, empresas públicas e reformados receberam pela primeira vez em vários anos o subsídio de Natal por inteiro).

E aparentam contrariar previsões de abrandamento do crescimento português feitas por organismos nacionais e internacionais.

Mais: a maioria dos economistas diz que o crescimento sustentável é o que é conseguido através do crescimento das exportações e do investimento: o aumento homólogo das exportações foi bastante superior ao do trimestre precedente, ainda que devido ao aumento das importações a procura interna líquida se tenha deteriorado significativamente.

O investimento acelerou fortemente, para um crescimento homólogo de 11,7%, principalmente devido à grande aceleração da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em construção, para 12,4%, e em outras máquinas e equipamentos, para 16,8%. A FBCF em equipamentos de transporte cresceu 5,0% nos dois últimos trimestres, mas o INE destaca que a utilização de equipamentos do exterior em regime de locação operacional não é registada nem como importação nem como investimento.

Os consumos público e privado desaceleraram no primeiro trimestre do ano, mas o investimento sustentou a aceleração da despesa Interna.

Porquê então as preocupações aqui suscitadas.

Em primeiro lugar, porque o consumo público e privado estão a enfraquecer e são as duas componentes da despesa cujo aumento mais contribui para o crescimento económico.

Segundo as Matrizes Simétricas Input-Output, elaboradas pelo INE (dados de 2015 publicados no fim de 2018), cada 100 euros de crescimento do consumo público faz aumentar o PIB em 90 euros e, no caso do consumo das famílias, o acréscimo é de 77 euros.

No caso da FBCF (investimento), cada 100 euros a mais aumentam em 64 euros a riqueza produzida e um acréscimo de 100 euros nas exportações faz subir o PIB em 56 euros.

Isto explica que a política inicial do Governo PS de aumento do salário mínimo e devolução de rendimentos à função pública, forçado pelo PCP, BE e Verdes, tenha conduzido a um crescimento económico significativo

Em particular, a exigência do PCP de aumento de todas as pensões a um universo de cerca de 2 milhões de reformados e pensionistas, uma grande parte com baixos rendimentos, o que os leva a utilizar todo o aumento da pensão no consumo de bens essenciais, contribuiu para o aumento da riqueza produzida em Portugal.

Também o Indicador de Clima Económico, do INE, sinaliza há alguns meses uma lenta tendência de abrandamento económico.

Nos números do INE é de destacar que a variação de existências representou no primeiro trimestre do ano em curso ascendeu a 488,3 milhões de euros, o equivalente a 1,05% do PIB trimestral, contra 290,2 milhões de euros no último trimestre de 2018 (0,63% do PIB desse trimestre) ou 800 mil euros no primeiro trimestre do ano passado.

O INE assinala que o aumento significativo das existências está ligado ao crescimento das importações.

Do lado do contexto internacional, a guerra comercial suscitada pelos Estados Unidos, visando principalmente a China – mas não só -, o agravamento das tensões da administração Trump com o Irão e outros países, entre outros aspectos, como as prováveis consequências da perseguição dos EUA à Huawei, a fabricante de equipamentos de telecomunicações que cresceu fortemente e lidera na tecnologia 5G.

O aspecto mais positivo para Portugal deste enquadramento económico negativo é que os juros provavelmente se manterão baixos, próximo de zero.

Todo este contexto dificulta fazer previsões com um mínimo de fundamento. A única certeza, em que todas as previsões coincidem, é em que a economia portuguesa, tal como a da União Europeia, deverá abrandar.

O que nem é estranho num momento em que o investimento público está em mínimos e o Governo tem como quase único objectivo apresentar-se à Comissão Europeia como o bom aluno que tem como preocupação cimeira chegar ao excedente orçamental.

Isto independentemente das consequências que essa opção tenha para a economia e para a qualidade de vida das populações em várias vertentes, desde a saúde até à eficiência dos transportes públicos e ao estado de conservação das vias de comunicação. Desde que haja dinheiro para pagar ao Novo Banco e garantir uma choruda rentabilização dos fundos de investimento que nele apostaram … tudo estará bem!



Fernando Valdez

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