Espremer demasiado as pessoas dá problemas sociais graves

Publicado em 31/01/2019 19:37 em Conjuntura Internacional

O economista e professor universitário do ISEG João Duque defendeu que, nas sociedades ocidentais, quando se espreme demasiado as pessoas há problemas sociais graves, como se prova pelas manifestações dos coletes amarelos em França.

Falando quarta-feira no seminário «A Economia Mundial em 2019», organizado pelas empresas Arcano e Optimal Investments, com apoio do Jornal Económico, João Duque acrescentou que não se pode perder a esperança [de melhoria de vida das pessoas].

Aquele professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) sustentou que nas sociedades ocidentais a sensação de que se está a esmagar o trabalho em favor do capital não gera estabilidade social, é péssima, e está por encontrar a forma de redistribuir os rendimentos, observando que é preciso dar a volta àquela questão.

Considerou que com o avanço das tecnologias, nomeadamente da automação e robótica, vão-se perder muitos postos de trabalho, o que implica um grande esforço em educação para se formarem e requalificarem as pessoas.

Espero que a solução não seja o esmagamento dos rendimentos do trabalho nem o esmagamento da esperança, «porque dá asneira», voltou a advertir.

Na opinião de João Duque, a automação e robótica era uma oportunidade para «a revolução do lazer», diminuindo os tempos de trabalho para ficar mais tempo para o lazer, mas manifestou descrença em relação à concretização dessa «revolução».

Carlos Gaspar, investigador na Universidade Nova de Lisboa, disse que temos sociedades «onde a desigualdade cresce significativamente desde o fim da guerra fria» e as pessoas têm cada vez menos paciência para isso.

Salientou que os dirigentes políticos ocidentais deixaram de fazer política há três décadas e não fazem a mais ligeira ideia do que é o contrato social, observando que o ressurgimento dos nacionalismos e dos movimentos anti-elitistas pode deixar as sociedade numa situação dramática, descartando a ideia de que «vamos voltar aos bons velhos tempos» da política.

Segundo Carlos Gaspar, o círculo vicioso que está a destruir as sociedades ocidentais está previsto e quantificado desde 1991 e a pergunta é porque é que neste período de quase 30 anos ainda não teve resposta.

O economista João Moreira Rato destacou que, se a inflação nos Estados Unidos confirmar a tendência de subida, a FED (banco central dos EUA) deverá apertar a política monetária e o dólar sobe, considerando que, se o dólar se apreciar e as taxas de curto prazo nos Estados Unidos subirem mais, os mercados emergentes que acumularam muita dívida em dólares serão afectados.

Salientou que o nível de alavancagem da economia chinesa está a ser corrigido, adiantando que um abrandamento da economia da China levará a um abrandamento económico mundial.

Relativamente a Portugal, Moreira Rato disse que se houver arrefecimento global os preços do mercado imobiliário residencial de luxo deverão ressentir-se, mas os do resto do sector residencial vão continuar a subir, num contexto em que se mantém uma política acomodatícia do Banco Central Europeu (BCE).

João Duque adiantou que a FED está a secar liquidez de forma programada e está numa rota de subida de taxas de juro.

Para aquele professor do ISEG, a economia portuguesa vai abrandar este ano por efeito da redução da procura externa, recordando que dois terços das exportações nacionais são para a União Europeia (UE), mas admitiu que a redução da inflação e a desaceleração económica na zona euro deverão travar as medidas de aperto monetário do BCE e levaram já a uma declaração de adiamento.

As famílias portuguesas ainda não vão sentir muito os efeitos do abrandamento em 2019, as empresas exportadoras sentirão, concluiu o professor universitário.

Carlos Gaspar afirmou que há indícios de divisão nas elites políticas e económicas chinesas sobre os efeitos da guerra comercial de Donald Trump, indicando que a China, que é «uma grande potência em todas as dimensões» (política, económica, militar), considerou inicialmente que poderia ser factor de estabilização internacional.

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