Ifo defende renegociação do Brexit

Publicado em 16/12/2018 16:53 em Opinião económica

O Ifo, o principal instituto de conjuntura económica alemão, ligado à Universidade de Munique, apelou publicamente à renegociação do acordo para o Brexit, num texto assinado pelo professor Gabriel Felbermayr.

O documento, divulgado pelo Ifo, afirma que «isto deve ser feito para evitar que o acordo falhe», fazendo notar que «o acordo também tem de ser aceitável pelo Reino Unido».

O director do Centro de Economia Internacional do Ifo, acrescenta: «A este respeito, a declaração da Comissão Europeia de que a corrente situação ‘é o melhor acordo e o único acordo possível’ não está correcta».

Gabriel Felbermayr observa que os números do Instituto Ifo mostram que um «hard Brexit» (saída sem acordo) teria mais custos para as duas partes, «mesmo se os prejuízos económicos para a Grã-Bretanha e Irlanda do Norte forem maiores do que para os restantes 27 países da União Europeia».

Felbermayr adverte que o Brexit diminui o valor da pertença à União para os outros membros e que essa perda excede os montantes reportados até agora.

«O Reino Unido é a segunda potência económica mais poderosa na União Europeia. A sua pertença à União Alfandegária Europeia aumenta consideravelmente o poder negocial da União Europeia em negociações internacionais, por exemplo, com a China e os Estados Unidos», destaca aquele director do Ifo.

Gabriel Felbermayr revela que um estudo conduzido pelo Ifo em colaboração com a Universidade Keio, de Tóquio, indica que o acordo entre a UE e o Japão, sem o Reino Unido valerá 13% menos para o Japão.

Aquele responsável do instituto de conjuntura de Munique, especialista em economia internacional, diz que a saída do Reino Unido afecta o delicado equilíbrio de poder entre os estados membros da UE, que a Alemanha perde um importante aliado para o comércio livre e que o Brexit reforça a posição dos que defendem no seio da União Europeia uma política comercial proteccionista.

«De uma perspectiva alemã e europeia seria aconselhável oferecer aos britânicos uma voz política na política comercial comum. Isto poderia ser conjugado com direito de voto em organismos relevantes do Conselho e do Parlamento Europeu».

Um grande obstáculo para os oponentes do acordo na Casa dos Comuns [câmara baixa do parlamento britânico) tem a ver com as questões em relação à união alfandegária, observa.

Gabriel Felbermayr sublinha que os britânicos teriam de seguir a política de comércio da União Europeia, mas não teriam qualquer direito de reciprocidade de terceiras partes.



A opinião deste director de um dos mais reputados institutos de conjuntura da Europa, especialista em questões económicas internacionais, deveria fazer reflectir os responsáveis europeus, desde logo os presidentes da Comissão Europeia e da zona euro, mas também o primeiro-ministro e o ministro dos negócios estrangeiros portugueses, que tantas vezes enchem os discursos com a velha aliança com Inglaterra.

É bom eles não esqueçam que Portugal tem muitos milhares de emigrantes no Reino Unido, muitos deles profissionais altamente qualificados, mas também alguns que vivem de subsídios do Estado britânico, e que, apesar do aumento da procura turística, os turistas do Reino Unido continuam a ter um grande peso nas exportações portuguesas de turismo.

Isto falando apenas de questões económicas. Eu nunca falei da velha aliança, os governantes portugueses, incluindo os actuais, sim.

E não ficarei surpreendido se a intransigência dos responsáveis da UE conduzir ao chamado «hard Brexit», que mais não é do que uma saída à bruta, litigiosa, com prejuízos difíceis de calcular para a UE e os seus Estados membros.



Fernando Valdez

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