Ser ou não ser … digital

Publicado em 28/10/2018 22:52 em Opinião económica

No dealbar do século XX, a informatização das organizações foi a panaceia universal para as empresas, a suposta solução milagrosa para funcionarem melhor, aumentarem a facturação e a rentabilidade, serem mais eficientes.

A informatização estava na moda. Foram anos de ouro para quem vendia hardware (servidores, computadores, etc) e software.

Surpresa das surpresas, muitas empresas investiram forte na informatização e pioraram, tornaram-se menos eficientes e produtivas.

Porquê? As empresas mantinham a organização e métodos de trabalho que tinham antes da informatização, não se dotaram de recursos humanos adequados e não formaram os seus trabalhadores para os novos métodos de trabalho necessários.

As tecnologias de informação evoluíram, a automatização e a inteligência artificial desenvolveram-se, a chamada nuvem (que mais não é do que fornecer através da Internet soluções informáticas e de armazenamento, a partir de servidores situados algures) teve um enorme crescimento.

Surgiu a nova moda da transformação digital, que mobiliza fabricantes e consultoras e encanta gestores e empresários de empresas de todo o mundo.

Quer isto dizer que a transformação digital é uma fraude? Não é, mas também não é a panaceia universal, a solução para o desenvolvimento e viabilização de todas as empresas.

As empresas precisam de evoluir e de se transformar com recurso às tecnologias num mundo em acelerado desenvolvimento tecnológico. Mas isso implica um planeamento estratégico adequado, com definição de objectivos correctos, e de estudo das tecnologias mais ajustadas ao sector de actividade e aos objectivos da empresa. E de novas formas de trabalhar.

Isto pressupõe capacidade técnica e de gestão dos seus decisores, adaptação da organização àquele desiderato, a existência de competências técnicas internas e a formação dos trabalhadores para trabalharem em novos moldes.

Um estudo da Universidade nova e da EY (consultoria) sobre a maturidade digital das empresas portuguesas revela que os decisores afirmam que essa maturidade é alta. Contudo, o estudo chega a conclusões bastante menos animadoras.

Geralmente as empresas nacionais apostam em tecnologias maduras e já testadas por outras, não optam por tecnologias mais disruptivas e inovadoras e não fazem desenvolvimento próprio.

O investimento no digital descura as vertentes das pessoas, da organização empresarial, a gestão da informação, a estratégia e o envolvimento da liderança das empresas. Não adaptam as políticas de recrutamento de pessoal e de desenvolvimento dos trabalhadores em função da estratégia digital definida.

E também não parecem ter a preocupação com a escolha das tecnologias mais ajustadas aos objectivos perseguidos, talvez porque esses objectivos não estão claramente traçados.

As conclusões do estudo apontam para a possibilidade de a falta de conhecimento e competências para o digital gerar em Portugal uma guerra pelo talento, tal como acontece noutros países.

Uma opinião em mim arreigada é a de que são necessários para uma grande parte das empresas empresários ou decisores com real capacidade de gestão. Esse é o primeiro passo para definir com clareza uma estratégia e objectivos, adaptar a organização a essa definição e escolher os quadros (os chamados «talentos») necessários e adequados.

É também muinha convicção que a procura de quadros competentes para as empresas não é compaginável com a estratégia de baixos salários adoptada por uma grande parte das empresas nacionais. Muitos dos melhores «talentos» não estão disponíveis para abdicar de condições de vida dignas e procuram no estrangeiro essas condições que não obtêm no seu país.

Em Portugal formam-se excelentes licenciados (médicos e outros profissionais de saúde, engenheiros e de tantas outras especialidades) com custos elevados para o Estado e para as famílias. Mas muitos dos melhores, face às condições salariais e de trabalho, optam por ir trabalhar para países estrangeiros onde lhes oferecem condições de vida dignas.

Por espantoso que pareça, há empresas que querem contratar engenheiros já com um mínimo de experiência por 800 ou mil euros, ou ainda menos, muitas vezes em regimes precários.

E esta falta de visão empresarial tem consequências nefastas para o desenvolvimento do país e para a entrada num novo padrão de especialização produtiva, que tão necessário é para Portugal.

A falta de capacidade de gestão e liderança e de visão estratégica nas organizações, que passa também pela captação de bons quadros, com políticas salariais ajustadas e pela definição rigorosa dos investimentos necessários – para além de um conjunto de políticas públicas adequadas -, compromete o necessário desenvolvimento do país.



Fernando Valdez

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