Empresas nacionais optimistas quanto à sua maturidade digital

Publicado em 28/10/2018 22:51 em Empresas

As empresas portuguesas avaliam positivamente a sua maturidade digital e mais de duas em cada cinco (41%) dizem que já iniciaram o processo de transformação digital há mais de cinco anos, segundo um estudo da School of Business & Economics (SBE) da Universidade Nova e da EY, organização global da auditora Ernst & Young.

O estudo, apresentado na conferência Beyond Portugal Digital Transformation, realizada esta semana, revela, contudo, alguns problemas que podem pôr em causa a apreciação da maturidade digital indicada pelas empresas.

Em particular, as respostas dos decisores de 102 empresas de seis sectores de actividade e diversas dimensões, localizadas em Portugal, levantam algumas questões congruência entre o optimismo relativo à maturidade e as respostas sobre o planeamento estratégico e liderança, as tecnologias alvo de apostas das empresas, e na opção pela adopção de tecnologias sem apostarem em desenvolvimento próprio.

João Castro, director executivo do Centro para o Negócio e Tecnologia Digital da Nova SBE, disse ao Falar de Economia e Tecnologia que foi posta uma bateria de questões a todos os inquiridos visando aferir o estado de maturidade digital das respectivas empresas.

Assinalou que praticamente todas as pessoas disseram que as suas empresas estão à frente da concorrência, o que significa algum excesso de confiança, porque para umas estarem à frente outras terão de estar atrás das suas concorrentes.

Para João Castro, que supervisionou a análise dos resultados do estudo, outra questão prende-se com a correlação entre a tecnologia utilizada e o sector de actividade em que a organização se insere, observando que frequentemente as tecnologias escolhidas não são as mais adequadas para o sector de actividade da empresa.

Destacou que o estudo revela que a transformação digital em Portugal em muitas organizações não está sustentada numa estratégia clara e no envolvimento da liderança de topo.

João Castro observa que é preciso analisar as competências que as empresas têm, o respectivo modelo de organização e se a cultura da empresa suporta a transformação.

As conclusões do estudo revelam que mais de 60% das empresas auscultadas reconhecem que não têm as habilitações e os conhecimentos digitais adequados, o que parece colocar em causa a perspectiva optimista quanto à maturidade digital.

Apenas 38% dos que responderam acreditam possuir na organização as habilitações e conhecimentos digitais adequados para suportar os processos de transformação digital.

O relatório indica que a generalidade das empresas faz uma avaliação pouco positiva quanto ao desenvolvimento da sua estratégia de transformação digital, com os resultados mais favoráveis nos sectores de energia e financeiro, mas com apenas 27% das empresas do primeiro e 22% do segundo a avaliarem com pontuação máxima a sua estratégia digital.

O estudo adianta que as respostas dos decisores permitem concluir que os investimentos no digital ainda estão a descurar as vertentes das pessoas e da organização, a gestão da informação, a estratégia e a liderança, uma realidade que pode colocar riscos a médio prazo.

Apenas 46% dos decisores inquiridos acreditam que existe na sua empresa um processo de inovação eficaz para priorizar ideias e levá-las do conceito para a implementação.

O inquérito revelou que as tecnologias mais procuradas pelas empresas nacionais são as redes sociais e marketing digital, cloud computing, big data e analytics e a Internet das Coisas (IoT), o que ilustra uma aposta em tecnologias maduras e com maior grau de adopção por outas empresas.

«Daqui parece resultar uma preferência por resultados rápidos ou por acompanhar o que outros vão fazendo, o que limita o potencial de inovações disruptivas», assinala a análise do estudo.

Acrescenta que só um número muito pequeno de empresas, significativamente abaixo dos 10% das inquiridas, indica ter em fase avançada de implementação projectos relacionados com impressão 3D, computação quântica, condução autónoma ou blockchain.

Nas conclusões, num texto sob o título «serão as empresas portuguesas pioneiras ou ingénuas?» afirma-se que do trabalho não resulta evidência de que a generalidade das empresas portuguesas esteja avançada nos seus processos de transformação digital.

Observa que uma análise mais fina por sector de actividade permite verificar que o investimento e a adopção de tecnologia nem sempre se correlacionam com o potencial de impacto previsto para os respectivos sectores e não parece haver critério que diferencie a adopção por sector.

Acrescenta que se vê genericamente uma mais forte adesão a soluções como a comunicação através das redes sociais, mesmo quando a sua eficácia e modelos de medição estão em debate.

Acresce que, em relação ao investimento futuro, «os participantes reportam que as suas organizações irão investir nas mesmas tecnologias em que já investiram no passado».

O trabalho revela o baixo nível de incorporação da transformação digital no planeamento estratégico, o que será provavelmente o mais preocupante.

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