Produto por trabalhador com fraco crescimento

Publicado em 29/03/2018 23:54 em Opinião económica

O Banco de Portugal, nas suas projecções económicas 2018/2020, prevê a continuação do aumento do emprego até 2020, embora em desaceleração, mas sublinha que esta projecção tem implícito um aumento fraco do produto por trabalhador.

Alíás, as estimativas do INE apontam para um crescimento de 3,3% do emprego em 2017, acima do aumento real de 2,7% do produto interno bruto (PIB).

A sustentabilidade do crescimento económico português em períodos mais desfavoráveis tem a ver em grande medida com o padrão de especialização da economia portuguesa, com grande incidência da produção em sectores de fraca ou média intensidade tecnológica e uma insuficiente qualificação dos postos de trabalho e da mão-de-obra empregada.

Mas também com outro factor, aliás correlacionado com o anterior, de salários baixos e, consequentemente, uma procura interna fraca e pouco resiliente a choques externos negativos.

Os baixos salários e a falta de empregos levaram muitos dos melhores talentos deste país a procurarem no estrangeiro empregos compatíveis com a sua qualificação e mais bem pagos, frequentemente muito mais estimulantes do ponto de vista profissional.

Para os jovens – e não só – mais qualificados, o facto de o crescimento recente do emprego estar centrado em áreas menos exigentes em qualificação (em 2017, o emprego nas actividades imobiliárias cresceu 31,9% e na hotelaria, restauração e similares subiu 15,8%, mas nas de consultoria, científicas, técnicas e similares desceu 1,3%) implica uma insuficiente atractividade do mercado de trabalho nacional.

As projecções do Banco de Portugal apontam para acréscimos do PIB de 2,3% em 2018, de 1,9% em 2019 e de 1,7% em 2020, com aumentos de emprego de 1,9%, de 1,3% e de 0,9% nos mesmos anos (portanto abaixo do aumento do produto) e uma descida da taxa de desemprego até aos 5,6% em 2010. Mas o banco central prevê que em 2020 o nível de emprego ainda se situe 1,6% abaixo do verificado em 2008, no período pré-crise financeira.

As exportações portuguesas de bens e serviços, tal como o investimento, deverão abrandar em 2018 e até 2020, segundo o Banco de Portugal, e o consumo privado também deverá desacelerar ligeiramente.

Na opinião do autor deste texto, é necessário apostar no investimento produtivo (nacional e estrangeiro) em sectores de média alta e alta tecnologia, com criação de novas empresas ou modernização das existentes, incluindo em indústrias competitivas, e em áreas tecnológicas de elevado valor acrescentado.

Mas também um salto em frente em sectores tradicionais da indústria, vendo o que aconteceu na indústria do calçado como um exemplo daquilo que o país deve fazer.

O que deve ser compaginado com salários atractivos, em particular para os mais qualificados, mas também remunerações mais dignas para a generalidade dos trabalhadores, que facilite o regresso de muitos portugueses que teriam bastante a dar ao país na contribuição para a criação de riqueza, que estão hoje a dar no exterior.

E implica igualmente voltar atrás nas alterações feitas na legislação laboral de anos recentes de má memória, que dão todo o poder aos detentores das empresas e acabam com um desejável equilíbrio nas relações laborais, incentivando os baixos salários e a precariedade.

O país não precisa de falsos «investimentos» estrangeiros, como aqueles que abundaram em anos recentes, em que empresas existentes e frequentemente muito lucrativas foram vendidas pelo Estado ou empresas públicas a capitais estrangeiros, pondo em causa o controlo nacional sobre sectores estratégicos. Exemplos evidentes são a EDP, a REFER, a PT ou a Caixa Seguros.

O Banco de Portugal prevê que a actividade económica mundial abrande no horizonte de projecção, em particular na zona euro, para um crescimento potencial que se estima ser inferior ao de antes da crise financeira iniciada na década passada.

São más notícias para o crescimento económico nacional, para as exportações de bens e para o investimento, mas também para o turismo, que normalmente tem alguma retracção em fases mais negativas do ciclo económico.

Na minha opinião, é mais do que altura de o Estado apostar no investimento produtivo e no aumento do rendimento disponível dos portugueses.

É preciso não sacrificar o interesse nacional a um sacrossanto défice orçamental, que pode suportar apoios elevados - previsivelmente durante anos - a bancos que pertencem a fundos de investimento privados, como é o caso do Novo Banco, mas não apoia suficientemente áreas essenciais para o bem estar da população, como a saúde, a educação de qualidade, as reformas e a cultura.



Fernando Valdez

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