Estudo do INE mostra que consumo privado é que gera mais crescimento

Publicado em 03/03/2018 19:16 em Opinião económica

Uma tese que tem vindo a ser divulgada como verdade absoluta nos últimos anos é que o crescimento pela via do consumo privado é indesejável e que o crescimento virtuoso do PIB vem apenas pela via do investimento e das exportações.

É uma tese com um conteúdo fortemente ideológico, que visa explicar a manutenção dos salários em níveis baixos, essa sim um dos maiores problemas da economia nacional. E que o novo líder do PSD, Rui Rio, veio apresentar como verdade incontestável, central no seu discurso, à semelhança do que muitos outros fizeram antes dele.

Não defendo – nunca defendi – que não se deve aumentar o investimento, tanto público como privado, e nunca disse que não se deve procurar aumentar as exportações. O problema é apenas quando o aumento das exportações industriais é feito pelo esmagamento de margens para níveis intoleráveis devido à grande redução da procura interna, como aconteceu no período da troika.

Um estudo do INE de Dezembro de 2016, com dados referentes a 2013, sobre Matrizes Simétricas Input-Output, vem repor estas questões no seu devido lugar.

O INE indica que um aumento de 100 euros no consumo privado contribui para um acréscimo de 74 euros do PIB, enquanto um acréscimo de 100 euros na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, investimento) gera um aumento de 67 euros no produto. Isto significa que cada 100 euros adicionais de consumo privado geram apenas mais 26 euros de importações, enquanto no caso do investimento por cada 100 euros de aumento as importações aumentam 33 euros.

No caso das exportações a situação é ainda mais desfavorável. Por cada 100 euros de acréscimo de exportações o PIB cresce 55 euros e 45 euros são absorvidos por importações.

Apenas o consumo público tem um rácio mais favorável do que o consumo privado, já que por cada 100 euros de aumento daquela componente do PIB, 92 euros são de produção nacional e só oito euros correspondem a importações.

O INE salienta que os números citados têm informação sobre as importações totais, directas e indirectas, uma questão importante tendo em conta que dois terços das importações se destinam à produção de bens e serviços que depois são absorvidos pela procura final.

O INE observa que a análise input-output permite ter uma noção do conteúdo importado total (directo mais indirecto) associado a cada agregado do PIB.

A importância de dinamizar o consumo vem também do peso desta componente da despesa na formação do PIB. O consumo privado pesa 66,0%, as exportações 46,5%, o consumo das administrações públicas 18,8% e o investimento 17,3%, de acordo com os valores de 1917. A soma excede os 100% porque o PIB do lado da despesa é calculado somando aquelas quatro componentes e diminuindo as importações.

O aumento do consumo privado não depende apenas do aumento do emprego mas também – e muito - dos níveis salariais, num país onde o ordenado médio se vai degradando e o número dos que recebem abaixo do salário médio em Portugal se vai alargando.

Manter um crescimento razoável e sustentado implica aumentar os salários em Portugal, desde logo o salário mínimo, mas também pela correcção das distorções introduzidas na legislação de trabalho nos últimos anos, que criaram condições para a degradação salarial.

Mas também criar condições para dinamizar o investimento privado e aumentar fortemente o investimento público, para gerar uma dinâmica industrial que não só permita aumentar as exportações mas igualmente para substituir as importações, além de apostar nas exportações de serviços, nomeadamente tecnológicos.

Estas são condições para travar a sangria para o estrangeiro de muitos jovens altamente qualificados, que aumentam a riqueza produzida no estrangeiro e não no seu país, em particular oferecendo empregos qualificados e salários competitivos com o resto da Europa Ocidental.

Ou seja, criar condições para alterar o actual padrão de especialização da economia nacional, essencialmente de baixa ou média tecnologia e baixos salários, pondo como meta o padrão de especialização produtiva dos países desenvolvidos da Europa Ocidental.

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Fernando Valdez

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