Crescimento económico 2018 deve ser inferior ao de 2017

Publicado em 01/03/2018 14:09 em Análise económica

O Produto Interno Bruto (PIB) português cresceu 2,7% em no ano passado, segundo o INE, mas este crescimento económico não será facilmente repetível em 2018, embora seja muito cedo para avançar com previsões mais precisas.

Os dados no INE revelam, numa análise intra-anual, que se verificou em 2017 uma clara desaceleração entre a primeira e a segunda metade do ano, com um crescimento de 3,0% no primeiro semestre e de 2,4% no segundo.

Este comportamento foi em larga medida devido ao efeito homólogo face a 2016, ano em que se registou um crescimento anémico no primeiro semestre e uma aceleração no segundo.

Por isso, aquilo a que chamarei o crescimento acumulado do ano anterior, isto é, o crescimento que obteríamos se o valor do produto em todos os trimestres fosse igual ao do quarto trimestre do ano anterior, seria de 1,2% homólogos no ano passado e de 1,0% em 2018.

Contas feitas, se os crescimentos trimestrais em cadeia (face ao trimestre imediatamente anterior) fossem em 2018 iguais aos de 2017, o crescimento económico ficaria em 2,4% no ano em curso, 0,3 pontos abaixo do verificado no ano passado.

O INE anuncia que o aumento da riqueza produzida em Portugal em 2017 ficou principalmente a dever-se ao aumento do contributo da procura interna de 1,6 pontos percentuais (pp) em 2016 para 2,9 pp no ano passado, em particular devido à forte aceleração do investimento, que aumentou 0,8% em 2016 e 8,4% em 2017.

O consumo privado acelerou ligeiramente, de 2,1% para 2,2%, com o consumo de bens não duradouros a acelerar entre 2016 e o ano passado, de 1,1% para 1,8%, e o de bens duradouros (geralmente com maior componente importada) a abrandar, de 11,7% para 6,0%, de acordo com o INE.

O INE indica que a procura externa líquida de bens e serviços teve no ano passado um contributo negativo para o crescimento, de menos 0,2 pp, que compara com um contributo nulo em 2016.

As exportações portuguesas de bens e serviços aceleraram entre 2016 e 2017, de 4,4 para 7,9%, e as importações de 4,2% para 7,9%, acrescenta.

Em 2017 o Valor Acrescentado Bruto (VAB) cresceu 2,2% homólogos, em aceleração face a 2016, ano em que aumentou 1,2%, com destaque para o VAB industrial que acelerou de um crescimento de 1,3% para 4,3%, dando um contributo de 0,5 pp para a variação do VAB, e para o VAB da construção, que no mesmo período passou de uma diminuição de 1,7% em 2016 para um aumento de 6,7% no ano passado.

O aumento da riqueza produzida em Portugal no ano em curso dependerá de vários factores, como a evolução da procura externa dirigida à economia portuguesa, não só de bens mas também de serviços, em particular do turismo, da evolução do investimento, nomeadamente do investimento público que apresenta há anos um comportamento pouco dinâmico mas recuperou um pouco em 2017, e, em grande medida, do comportamento do consumo privado, que continua a ser claramente o mais importante componente do PIB do lado da despesa (ver artigo que se segue).

Poderemos, nesta fase preliminar, estimar que o crescimento do PIB se situe algures entre 2,2% e 2,7% (valor menos provável), em função do comportamento dos factores anteriormente anunciados, sendo que a recuperação das zonas devastadas pelos incêndios de Junho e Outubro passados pode influenciar positivamente o crescimento, mas sem um peso determinante.

O comportamento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), numa altura em que se perspectivam alguns novos investimentos, deve também influenciar o nível de crescimento da economia nacional.



Fernando Valdez

Ainda sem comentários