Crescimento português pode desapontar um pouco em 2017

Publicado em 14/08/2017 21:58 em Análise económica

O crescimento de 0,2% em cadeia do PIB português hoje estimado pelo INE para o segundo trimestre, que beneficiou do facto de a Páscoa ter sido este ano em Abril, leva a corrigir as expectativas optimistas aqui apresentadas a 1 de Junho (um crescimento próximo de 3%), quando o INE divulgou as suas estimativas para o primeiro trimestre.

Apesar de as estimativas do PIB não serem actualmente baseadas em valores brutos mas sim corrigidos de sazonalidade e de efeitos de calendário, o crescimento em cadeia deverá considerar-se modesto.

Aliás, o autor tem muitas dúvidas metodológicas relativamente ao facto de as instituições estatísticas da União Europeia não publicarem os valores brutos dos PIB a preços constantes, independentemente de basearem ou não os cálculos oficiais em valores corrigidos de sazonalidade.

Defendo que, no mínimo, pelo menos os cálculos do crescimento económico anual das economias deveriam ser baseados em valores brutos deflacionados, a preços constantes, o que resultaria em maior transparência, já que em termos anuais não se colocam questões de sazonalidade. Tal aumentaria a transparência e eliminaria eventuais suspeições de manipulação estatística.

Durante o período de uma semana em que, há alguns anos e como jornalista, estive no Eurostat e tomei conhecimento das metodologias estatísticas usadas pelos países da União Europeia, nomeadamente para correcções de sazonalidade e de dias uteis, o autor destas linhas ficou com muitas dúvidas sobre aquelas metodologias e sobretudo sobre a sua aplicação a todos os países da UE.

Posteriormente verificou que alguns estaticistas portugueses, com incomparavelmente mais capacidades técnicas do que as suas, tinham também algumas reservas, mas que apenas partilhavam informalmente.

Embora o Falar de Economia e Tecnologia mantenha a previsão de que o crescimento económico ficará sempre acima de 2%, a expectativa de que poderá chegar aos 3% e mesmo ultrapassar essa fasquia está agora mais longe.

Se nas estimativas a divulgar a 31 de Agosto não se verificar uma correcção em alta do crescimento em cadeia no segundo trimestre, o mais provável é que o crescimento de 2017 fique algures entre 2,3% e 2,8%, dependendo de vários factores, entre os quais o comportamento do investimento e da evolução da procura externa líquida de bens e serviços.

Os 3% não serão impossíveis, mas são pouco prováveis e muito exigentes.

O INE indica que no segundo trimestre o crescimento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, investimento) foi inferior ao aumento registado no primeiro trimestre.

Quanto à procura externa líquida, o INE refere que teve um contributo ligeiramente negativo para a variação homóloga do PIB e teve uma variação em cadeia negativa, mas alerta para que não estão ainda disponíveis os deflatores do comércio internacional (importações e exportações).

A manutenção do crescimento homólogo no segundo trimestre em 2,8%, também hoje divulgado, decorre de o efeito de base de comparar com um trimestre de 2016 com um fraco comportamento e de se ter seguido um segundo semestre de 2016 e um primeiro trimestre de 2017 bastante positivos.

Seria preciso o PIB português ter no segundo semestre crescimentos em cadeia idênticos aos do ano passado para o crescimento económico do país se manter nos 2,8% homólogos no conjunto do ano, mas a brusca desaceleração em cadeia no segundo trimestre leva a depositar poucas esperanças em que tal se concretize.



Fernando Valdez

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