Qualidade de vida dos portugueses degradou-se

Publicado em 18/07/2017 23:05 em Indicadores estatísticos

A qualidade de vida dos portugueses sofreu aparentemente uma degradação nos últimos anos, com as despesas com lazer, recreação e cultura a baixarem 18,5% entre 2010/2011 e 2015/2016 e os gastos com restaurantes e hotéis a baixarem 15,8%, segundo dados do Inquérito às Despesas das Famílias, divulgado segunda-feira pelo INE.

Os dados do INE revelam que no período em análise a despesa total média dos agregados familiares desceu, ainda que marginalmente, de 20 391 euros anuais em 2010/2011 para 20 363 euros em 2015/2016 (menos 28 euros).

A despesa média por agregado familiar em 2015/2016 foi no Norte de 19 928 euros anuais, menos 743 euros do que cinco anos antes, de 18 875 euros na região Centro (menos 308 euros), na área metropolitana de Lisboa 23 148 euros (mais 764 euros), no Alentejo 17 798 euros (mais 1 024 euros) e no Algarve 20 459 euros (mais 492).

Na região Autónoma da Madeira o rendimento líquido médio por agregado familiar foi no último inquérito de 18 204 euros (menos 382 euros do que cinco anos antes) e nos Açores de 16 856 euros (menos 770 euros).

Apesar de o Alentejo ter sido a região em que o rendimento médio mais cresceu, as famílias alentejanas continuam a ter dos mais baixos rendimentos médios do país, apenas acima das açorianas.

A qualidade de vida das famílias está normalmente correlacionada com a parte da despesa em áreas menos básicas e que não são de consideradas tão essenciais, como é o caso do lazer, recreação e cultura (que inclui viagens turísticas organizadas) e restaurantes e hotéis, sendo aquelas as classes de despesa com maiores reduções de peso no ano passado.

Os dados do INE revelam que o peso médio do lazer, recreação e cultura nas despesas totais dos agregados familiares portugueses foi no inquérito 2015/2016 de 4,2%, o mais baixo deste século, e as despesas com restaurantes e hotéis baixaram para 8,8% do total, o valor mais baixo desde 1990.

Em compensação, os gastos com habitação, água, gás, electricidade e outros combustíveis, que em 1989/90 não chegava a um oitavo das despesas familiares, subiu para cerca de um quinto nos dois inquéritos seguintes, em 2005/2006 excedeu um quarto e cresceu para 29,2% em 2010/2011 e 31,9% (quase um terço) em 2015/2016, tornando-se o principal grande agregado das despesas familiares.

O INE sublinha que naquele inquérito aos rendimentos e às despesas das famílias, a habitação, transportes e alimentação representaram 60% dos gastos totais. No entanto, mais de metade disso decorre das despesas de habitação anteriormente referidas.

É nas duas regiões mais pobres que o peso das despesas com habitação, transportes e alimentação é maior, somando 64,7% nos Açores e 63,2% no Alentejo, sendo no Alentejo que é menor o gasto médio com lazer, recreação e cultura, com um peso de apenas 3,1% na despesa.

Os dados do INE indicam, também, que a despesa média dos 20% de famílias mais pobres se situou no ano passado em 11 453 euros por ano, com mínimos de 10 546 euros na região Centro e de 10 628 nos Açores, e a dos 20% mais ricos foi de 32 803 por ano, com um máximo de 33 685 na área metropolitana de Lisboa.

O estudo revela que as famílias com crianças tiveram uma despesa média de 25 254 euros, cerca de 44% mais do que os agregados sem crianças a cargo (17 494 euros), com a disparidade a ser maior nos gastos com o ensino, como seria de esperar.

Os agregados sem crianças apenas superam a despesa dos que têm crianças a cargo no caso das despesas com a saúde.

Os agregados familiares só com idosos têm em Portugal a mais baixa despesa média anual, de apenas 18 146 euros, de acordo com o INE.

O inquérito 2015/2016 revelou um rendimento médio anual líquido de 23 635 euros por agregado familiar em 2014, uma média de quase 1970 euros por família em cada um dos 12 meses do ano, um pouco acima dos 22 136 euros de rendimento anual que se registava cinco anos antes.

O INE destaca que o rendimento médio é mais alto nas zonas predominantemente urbanas, atingindo os 28 101 euros na área metropolitana de Lisboa. O rendimento médio anual líquido nas áreas predominantemente urbanas atinge os 25 334 euros, 37,7% mais do que a média nas áreas principalmente rurais (18 397 euros), segundo os dados do INE.

Os 20% de portugueses mais pobres receberam em 2014 um rendimento médio de 9 359 euros, cerca de 60% abaixo do rendimento médio nacional, mas os 20% mais ricos tinham em média 45 921 euros, 4,9 vezes mais do que os 20% mais pobres.

A questão será, talvez, saber se se pode falar em 20% mais ricos quando o seu rendimento médio anual dividido por 12 dá um resultado de 3826 euros por mês. O que não chega ao dobro do salário mínimo do Luxemburgo, que é este ano de 1998,59 euros.



Fernando Valdez

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