Ciência e tecnologia para tranformação digital existe há anos

Publicado em 12/05/2017 00:08 em Geral

A transformação digital não traz nada de novo do ponto de vista da ciência e tecnologia utilizada, que já existe há anos, defendeu hoje José Tribolet, catedrático do Técnico e presidente do INESC – Instituto de Engenharia e Sistemas de Computadores.

Numa intervenção durante o CxO Forum, organizado pela consultora IDC, aquele professor do Instituto Superior Técnico (IST) considerou que o que estamos a ver na transformação digital é tecnologia empacotada com novos nomes e novas marcas.

O presidente do INESC acrescentou que a «moda» da transformação digital «não tem nada de novo e tem tudo de novo», explicando que, se do ponto de vista científico e tecnológico coisas como machine learning e big data existem há muitos anos, também é verdade que a infra-estrutura tecnológica e a Internet têm capacidades de processamento e velocidades muito superiores às de há alguns anos, com custos muito mais baixos.

Tribolet sustentou que tanto os «servidores com tecnologia de carbono» (pessoas), como os de sílica (harware informático) estão sujeitos a solicitações muito intensas em tempo real e que as empresas concorrem numa aldeia global.

«Por isso, na moda da transformação digital, em termos circunstanciais, temporais, de contexto e de âmbito é tudo novo», adiantou.

Aquele catedrático do IST afirmou que os gestores e as equipas de tecnologias de informação e comunicações (TIC) das organizações podem dar todas as respostas tecnológicas a tempo e quase a custo zero, mas é preciso definir o que as equipas querem dos gestores e o que os gestores pretendem das suas equipas.

Considerou que o êxito da transformação digital depende de fazer a actualização do «sistema operativo» dos trabalhadores (os servidores com tecnologia de carbono, na imagem de Tribolet) e observou que se as pessoas não estiverem integradas na organização e não tiverem competência é melhor esquecer.

Mas defendeu que os gestores têm de dar o exemplo na transformação digital e actualizar também os seus sistemas operativos.

«Sem motivação, comnpetência, empenho, inovação, valores e ética alinhados com a transformação digital esqueçam a revolução em curso», concluiu José Tribolet.

Fernando Lucas Bação, professor da Universidade Nova de Lisboa (UNL), subdirector da NOVA IMS e director do centro de investigação MagiC recordou que o código de barras demorou anos para se definirem os standards, a primeira embalagem com código de barras foi a das pastilhas Wrigley’s (Estados Unidos), lançada em 1974, e dois anos depois da implementação a Business Week titulava na capa «código de barras falhou».

O professor da UNL defendeu que foi o código de barras que permitiu o aparecimento de retalhistas muito grandes, aumentou significativamente a escala do retalho e sustentou o ganho de poder dos retalhistas sobre os fornecedores.

Garantiu que quem não se preparou para a transformação digital, para o Big Data, terá de se integrar em pouco tempo ou de sair do negócio.

O subdirector da NOVA IMS sustentou que a primeira fase da inovação é exploratória, a segunda fase é de convergência, em que se procuram as melhores soluções e as possibilidades de evolução futura.

Fernando Bação disse que qualquer organização tem de hoje explorar o negócio para ter rentabilidade, mas também tem de pensar como será o negócio no futuro, usando a informação que hoje tem.

Acrescentou que as grandes organizações têm actualmente enormes quantidades de informação e utilizam uma parte para o seu negócio e apoio à decisão, mas outra parte pode ser utilizada para antever as tendências do futuro.

Aquele professor da UNL alertou para que o paradigma de que só dois ou três grandes actores de cada sector têm capacidade para analisar toda a informação que detêm vai mudar, porque muitas empresas de menor dimensão têm hoje à sua disposição ferramentas para analisar a informação acumulada.

Sustentou que para preparar o futuro as organizações devem optar por fazer várias pequenas apostas em vez de uma grande aposta, a exemplo do que faz o capital de risco, que investe em várias novas empresas sabendo que 90% podem falhar mas uma só pode rentabilizar o capital investido em todas.

Fernando Bação citou uma frase de Lenin: «É impossível prever o tempo e progresso da revolução. É governada pelas suas próprias leis, mais ou menos misteriosas», para explicar que quando no fim do século XIX se levou em Manhattan (Nova Iorque, Estados Unidos) a electridade até às casas, para iluminação, ninguém previa o enorme desenvolvimento da indústria de electrodomésticos que isso permitiu depois.

Observou que as casas não tinham fichas eléctricas e que os primeiros electromésticos eram alimentados ligando-os aos casquilhos das lâmpadas.

Sublinhou que na inovação é sempre difícil saber onde está a galinha dos ovos de ouro.

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