Forte empobrecimento em Portugal entre 2010/11 e 2015/16

Publicado em 21/12/2016 01:12 em Análise económica

As famílias portuguesas empobreceram fortemente entre os períodos de 2010/2011 e de 2015/2016, que engloba o período de aplicação das medidas de austeridade impostas pela Tróica e pelo anterior governo de Passos Coelho.

Os dados agora divulgados pelo INE revelam que a despesa média anual dos agregados familiares portugueses baixou 4,2% em termos reais (descontado o aumento de preços) no período de cinco anos considerados.

SE a isto acrescentarmos que a taxa de poupança das famílias desceu de 9,7% do rendimento disponível bruto em 2010 para 5,5% em 2014 (o INE ainda não disponibilizou dados para 2015) isto significa que a capacidade financeira das famílias se deteriorou fortemente no período analisado, o que significa um forte empobrecimento dos portugueses.

A despesa das famílias em Portugal foi de 20 916 euros por ano em 2015/2016 , um aumento de 2,6% face a cinco anos antes se não tivermos em conta o aumento dos preços, mas corrigida da inflação cresceu 4,2%. E não se trata de as famílias consumires menos para pouparem para o futuro.

O facto de a taxa de poupança em percentagem do rendimento disponível bruto ter baixado para pouco mais de metade entre 2010/2011 e 2015/2016 e de a despesa das famílias ter baixado mais de 4% em termos reais significa que o rendimento dos portugueses teve uma forte quebra. Os portugueses estão muito mais pobres do que há cinco anos.

Os inquéritos do INE relativos a 2010/2011 e a 2015/2016 revelam um reforço do peso dos bens mais essenciais na despesa e uma quebra em produtos e serviços que se poderão considerar menos prementes.

Por exemplo, as despesas com habitação, água, gás, electricidade e outros combustíveis viram em cinco anos crescer o seu peso na despesa das famílias portuguesas de 29,2% para 31,8% e o da alimentação e bebidas não alcoólicas de 13,3% para 14,4%.

Nos últimos anos, entre 1989/90 e 2010/11, o peso das despesas com alimentação e bebidas não alcoólicas manteve uma tendência descendente, que foi invertida no último inquérito.

Também os transportes reforçaram a sua importância, passando de 14,5% para 14,7% das despesas familiares entre 2010/2011 e 2015/2016 e as comunicações de 3,3% para 3,5%.

O ensino manteve o peso na despesa total inalterado em 2,2% e todas as outras classes registaram uma diminuição do seu peso.

O lazer, recreação e cultura, que nas sociedades modernas deveria ganhar importância, tal como aconteceu em Portugal entre 1994/95 e 2010/11, viu o seu peso nas despesas familiares reduzir-se de 5,3% em 2010/2011 para 4,2% em 2015/2016

A despesa em hotéis, restaurantes e cafés baixou de 10,4% para 8,5%, num período em que surgiu na língua portuguesa o verbo «marmitar» (levar de casa a marmita para almoçar no trabalho em vez de comer fora) e em que muitas famílias deixaram de comer fora nos seus períodos de lazer.

Nos cinco anos em análise, as despesas com equipamentos domésticos, manutenção corrente da casa e acessórios para o lar diminuíram a importância nas despesas familiares de 4,2% para 3,8%, os gastos com saúde baixaram o peso de 5,8% para 5,6% e com vestuário e calçado de 3,7% para 3,4%.

Ou seja, além da redução da despesa total em termos reais, os portugueses tiveram de acudir mais às despesas essenciais e reduzir em itens que, sendo fundamentais para avaliar o nível e a qualidade de vida das populações, são geralmente considerados como de menor prioridade.

E também foram forçados a acautelar menos o seu futuro, reduzindo significativamente a taxa de poupança, que há pouco mais de uma década chegou a estar acima dos 10% do rendimento disponível.

O inquérito do INE revela, também, que em 2015/2016 a área metropolitana de Lisboa é a única com uma despesa acima da média nacional (23 966 euros anuais), enquanto os Açores têm 17 166 euros, o Alentejo 17 902 euros, a Madeira 18 473 euros, o Centro 19 392 euros, o Norte 20 437 euros e o Algarve 20 846 euros.

Fernando Valdez

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