Comissão Europeia tarda em tirar lições do Brexit

Publicado em 28/06/2016 23:54 em Opinião económica

Regressado de uma permanência de um dúzia de dias no Reino Unido, durante a qual ocorreu o referendo para saída do Reino Unido da União Europeia, chegado a Portugal concluo que os dirigentes alemães e os burocratas de Bruxelas se recusam a aprender as lições da vitória do Brexit.

Que se desenganem aqueles que pensam que a vitória da saída foi consequência de um menor empenho dos partidários da manutenção na União Europeia (UE).

O que vi (só em Londres, é certo) é que até quase à hora do fim da votação os partidários do do «bremain» (manutenção na UE) estavam em força nas ruas e estações de transportes a apelar ao voto contra a saída da UE e não vi igual empenho dos partidários da saída. O que vi foi as respostas «I’m out» aos que entregavam propaganda do «bremain».

Na segunda-feira, o taxista que me conduziu ao aeroporto, explicou-me que foi favorável à entrada na EEC (CEE, Comunidade Económica Europeia) mas discorda daquilo em que transformou a União Europeia, em que Bruxelas impõe legislação e um conjunto de condições aos países membros.

Sintetizava que é inglês e quer continuar a pertencer a um Reino Unido independente, que possa dispor do seu destino, e que não aceita que lhe sejam impostas regras do exterior.

Isto inclui a oposição à livre entrada de cidadãos europeus. Para o taxista, os imigrantes são necessários mas devem ser as autoridades britânicas a regular a sua entrada e impedir a entrada dos que vão para o Reino Unido não para trabalhar mas para viver de subsídios, à custa dos contribuintes britânicos.

A União Europeia que hoje temos, com um cariz cada vez mais federalista e políticas de um neo-liberalismo extremado, impostas por Merkel, Schauble e pelos seus seguidores da Comissão Europeia (CE), é a principal responsável pela vitória do Brexit e por outras saídas da UE que possam seguir-se.

E note-se que o Reino Unido dispunha de um conjunto de exclusões que minimizavam as imposições de Bruxelas, enquanto a maiotisa dos Estados membros, em particular nos mais fracos e pequenos, estão sujeitoa a todas as imposições.

O «Brexit« pode conduzir a prazo a outros «exit» de países. Os cidadãos da UE revêem-se cada vez menos nos dirigentes da União e cresce o descontentamento com as políticas que Berlim e Bruxelas impõem aos países da UE, com consequências extremanente gravosas para o bem-estar e o nível de vida dos cidadãos.

Os responsáveis alemães e os burocratas de Bruxelas não perceberam – não querem perceber - que é reconduzindo a UE a um comportamento mais democrático, que respeite a independência dos Estados membros e que os trate como iguais, em que seja impossível discutir-se sanções para Portugal e Espanha mas poupando a França apenas «porque é a França», que podem consolidar a UE.

Não é admissível que os Estados não sejam iguais em direitos e deveres. Porque é que a Alemanha não é penalizada pelas suas violações das regras europeias?

O caso de Portugal e Espanha é escandaloso. Tal como aconteceu com a Grécia, Merkel, Schauble, CE e alguns governos fundamentalistas pretendem penalizar as opções eleitorais mais à esquerda assumidas pelos povos ibéricos. Um expoente de comportamento anti-democrático.

Alguns, como o primeiro-ministro holandês, perceberam, talvez porque o mesmo possa vir a bater-lhe à porta. O chefe do governo da Holanda já alertou para que é preciso mudar as políticas europeias para evitar novas situações como a britânica.

Há quem esteja a contar com a saída da Escócia do Reino Unido para minimizar o Brexit, esquecendo que isso abrirá a caixa de Pandora para que um conjunto de regiões de países europeus exijam o reconhecimento das suas independências, desde logo a Catalunha e o País Basco, mas também outras que noutras países europeus reclamam autonomia ou independência. Um passo para uma nova guerra internacional?

O ultraliberalismo mais extremado e ortodoxo e as políticas profundamente austeritárias impostas pelo núcleo duro da UE e da zona euro estão a aprofundar a crise económica da União Europeia. Quando a maioria dos cidadãos não tem capacidade económica, o consumo fica debilitado.

Se não há procura, as empresas entram em dificuldades, aumentam as falências e o desemprego e há novas empresas em dificuldades, gerando-se um efeito bola de neve. Se não há procura não há investimento, porque ninguém investe sem perspectivas de conseguir vender os seus produtos ou serviços.

A alternativa é a procura externa? Poderia ser se não estivessemos num mundo globalizado onde as políticas austeritárias minam também a procura noutros pontos do globo e onde a contenção da procura nos países desenvolvidos afecta a capacidade de crescimento das economias emergentes, logo, a sua procura.

As políticas neo-liberais, da austeridade, do capital sem rosto, dos fundos de investimento que dominam as nossas economias, estão a conduzir o mundo para o abismo. Talvez para a guerra.

E o mundo precisa de uma Europa de crescimento económico inclusivo, com políticas sociais, mais solidária, composta por Estados independentes e cidadãos com direitos políticos, económicos e sociais, uma Europa virada para o bem-estar dos seus cidadãos, não a União Europeia que temos hoje.

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