Uma má notícia

Publicado em 23/01/2015 00:48 em Opinião

A venda da PT Portugal à Altice, aprovada quinta-feira por pouco mais de 40% do capital da PT SGPS, é, na opinião do autor destas linhas, uma má notícia. Boa notícia, apenas para a altamente endividada OI, que encaixa o valor da venda da PT Portugal e vai investi-lo no Brasil.

Uma manifestação de interesses: o politicamente correcto não é o meu departamento e sou defensor da manutenção da maioria do capital das empresas estratégicas nas mãos no Estado português, única forma de garantir sem margem para dúvidas a permanência dos seus centros de decisão em Portugal e de defesa dos interesses nacionais.

Má notícia para o país, que assim vê alienar a mais completa rede de telecomunicações do país ao «capitalismo sem rosto», tal como já viu cair em mãos estrangeiras outros activos estratégicos nacionais como a REN, detentora da rede eléctrica, a EDP, a ANA, que gere os aeroportos nacionais, só para citar algumas.

E corre o risco de um dia destes acordar com a TAP, a REFER (rede ferroviária) ou a Estradas de Portugal em mãos estrangeiras.

Más notícias para os accionistas, em particular os pequenos, que durante alguns anos receberam dividendos generosos e que provavelmente não terão qualquer retorno significativo do seu investimento durante vários anos em troca de deterem colectivamente, sem qualquer poder de controlo, um quarto do capital de um operador de telecomunicações brasileiro sem presença em Portugal.

Má notícia para os trabalhadores da PT Portugal, que olham para o que aconteceu na Cabovisão e posteriormente na ONI quando a Altice comprou aquelas empresas de telecomunicações nacionais.

Os fundos de investimento caracterizam-se pela sua opacidade, pela dificuldade de saber quem são os detentores do capital ou aqueles que o controlam e, consequentemente, pela dificuldade de pedir contas a alguém pelas decisões que tomam.

No caso da PT, há que destacar que o Estado abriu mão da propriedade da rede de telecomunicações de cobre, aquela que chega a quase o país, e entregou-a à PT a preço de saldo. Mais tarde, a PT integrou-se na Oi na perspectiva que viria a fazer parte de um grande operador lusófono, representado em Portugal pela PT Portugal.

A PT detém competências nas comunicações por satélite, participa em cabos submarinos que ligam Portugal a África e à América do Sul, tem importantes capacidades na inovação e na investigação e desenvolvimento na área das telecomunicações. É tudo o que isso significa que poderá estar em causa com a venda da PT Portugal à Altice, que representa interesses que podem ser muito respeitáveis mas em relação aos quais pouco se sabe e muito se especula.

O bom negócio foi da Oi. Acenando com a participação portuguesa num grande operador de telecomunicações do mundo lusófono, por troca de acções integrou a PT Portugal, ficando a PT SGPS não com os cerca de 36% do capital da empresa brasileira inicialmente previstos mas apenas com aproximadamente um quarto do capital.

Agora a PT SGPS deixa de ter activos em Portugal e fica com a miragem que é uma participação minoritária num operador apenas interessado no Brasil, já que a participações em operadores dos países africanos que falam português e em Timor também são para vender.

A PT era há bem poucos anos um operador de comunicações importante e de sucesso no mundo que fala português, bem mais do que provavelmente alguma vez será a Oi.

Creio que os accionistas da PT SGPS trocaram esse operador português por uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.

E assim se vai escrevendo a história de um país milenar que parece ter um futuro cada vez mais sombrio.



Fernando Valdez

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