Venda da PT Portugal: grande negócio … para a Oi

Publicado em 04/11/2014 01:57 em Opinião

A fusão da PT e da Oi, apresentada como a oportunidade de criação de um grande operador de telecomunicações para o espaço de língua portuguesa, poderá afinal vir a tornar-se num grande negócio para os brasileiros da Oi.

A Altice, anunciou hoje em comunicado de imprensa e a Oi em comunicado ao mercado de valores brasileiro a oferta da Altice para comprar os activos da Oi em Portugal por 7,025 mil milhões de euros, excluindo dívida e valores em caixa e incluindo 400 milhões de euros de geração de receitas futuras e 400 milhões de euros por geração de «cash flow» operacional.

A 30 de Junho, a PT Portugal tinha um activo de 12,4 mil milhões de euros, uma dívida bruta de 6 573,8 milhões de euros e líquida de 6 309 milhões, segundo o relatório do primeiro semestre de 2014.

Cerca de 7 mil trabalhadores em pré-reforma ou com suspensão de contratos com direito a receber uma prestação salarial até à idade da reforma representavam responsabilidades não financiadas de 966 milhões de euros.

Os representantes dos trabalhadores da PT manifestaram-se contra a venda da PT Portugal e manifestaram receios pelos postos de trabalho tendo em conta que uma das primeiras medidas da Altice, senão a primeira, após a compra da Cabovisão foi uma forte redução do emprego na empresa.

Um dirigente sindical do SINTTAV disse ao Falar de Tecnologia que é difícil imaginar pior negócio para a empresa portuguesa tendo em conta comportamentos anteriores da Altice. E desde que se começou a falar na possível transacção, dirigentes sindicais manifestam o receio de que a Altice pretenda despedir trabalhadores e realizar mais valias com o desmantelamento e venda da PT Portugal, no todo ou em parte.

Possibilidade negada no fim de Outubro por Dexter Goei, CEO da Altice, em entrevista ao Diário Económico publicada no fim de Outubro, em que assegurava que a Altice não vai desmantelar a PT, mas vai reforçar o investimento e criar 4 mil postos de trabalho em «call centers» (centros de atendimento).

Coloca-se ainda a questão do futuro de cerca de 7 mil trabalhadores que não estão neste momento a prestar trabalho, por proposta e conveniência da empresa, mas que dependem da prestação salarial que dela recebem.

Os accionistas da PT, integrados na PT SGPS, viram a pretexto do não pagamento da dívida pela Rioforte a participação da SGPS portuguesa no novo operador saído da fusão baixar de próximo de 38% para menos de 26%.

Afinal a PT, de parceiro estratégico da Oi, passa agora a ser fonte de receitas por venda do activo em Portugal, para reduzir a enorme dívida da Oi e lhe permitir fazer investimentos no mercado brasileiro.

Os accionistas da PT SGPS passam a, com a participação minoritária no operador brasileiro, deixar de ter qualquer influência na OI e a não deter qualquer activo em Portugal. E nem devem ter expectativas de encaixe financeiro, porque o que a Altice ou outro comprador pagar servirá à Oi para amortizar a sua enorme dívida e financiar investimentos no Brasil.

Pior negócio para a parte portuguesa não podia haver.

Por isso se justificam os crescentes apelos, vindos de quadrantes variados, a uma intervenção do Estado português para evitar o desmantelamento de uma empresa estratégica para o país, grande empregadora e com forte potencial de investigação, desenvolvimento e inovação nas áreas dos sistemas de informação e telecomunicações.

Considero que fazer gorar a venda do operador histórico português de telecomunicações é uma responsabilidade do Governo e demais autoridades portuguesas em defesa de interesses estratégicos do país.

Mas também será estranho se a PT SGPS e os seus accionistas não aproveitarem a possibilidade que ainda têm de dissolver o negócio da fusão e usar o seu direito de veto à venda da PT Portugal, um negócio que seria ruinoso e desastroso para os seus próprios interesses.



Fernando Valdez

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