Operador francês oferece bloqueio de publicidade na Internet

Publicado em 09/01/2013 13:42 em Opinião

O operador de telecomunicações francês Free, que terá mais de 5 milhões de clientes utilizadores de Internet, está a actualizar o serviço oferecido com uma funcionalidade que por defeito bloqueia a publicidade na Internet, segundo um artigo de David Jolly, publicado no New York Times.

O New York Times indica que o Google tem sido apontado como o principal alvo desta medida, tanto mais que o patrão da Free se tem queixado que os conteúdos do Google, em que se inclui o You Tube, ocupam muita largura de nbanda da rede de telecomunicações da empresa.

O jornal indica que a associação francesa das empresas de notícias online, a Spiil, já reagiu à decisão da Free afirmando que nenhum fornecedor de serviços Internet «tem o direito de decidir o aquilo a que os cidadãos têm ou não acesso na Internet».

E, segundo o New York Times, a questão preocupa o governo gaulês e o ministro francês para a Economia Digital, Fleur Pellerin, está a planear convocar um encontro das partes em conflito para procurar uma resolução.

Analistas admitem que o regulador francês possa proibir que fornecedores de serviços Internet possam bloquear conteúdos unilateralmente.

A questão ameaça mudar o paradigma da Internet da gratuitidade de muitos serviços Internet, mas levanta também outras questões.

O modelo de negócio gratuito de motores de busca como o Google, de redes sociais como o Facebook, de jornais digitais (que em Portugal, quando incluem notícias pagas, têm um fraco número de subscritores) e tantos outros depende da publicidade.

Esses serviços só mantêm o carácter gratuito para os utilizadores porque o modelo de negócio se baseia na publicidade que os anunciantes pagam.

Por outro lado, a possibilidade de operadores de telecomunicações e outros ISP (fornecedores de serviços Internet) poderem decidir por sua iniciativa bloquear aquilo a que podemos aceder na Internet é totalmente inaceitável.

Isso é o que acontece em diversos países por decisão de governos e há um repúdio generalizado contra essa prática limitadora da liberdade na rede das redes.

Mas todos sabemos como é incomodativo um «banner» publicitário em cima daquilo a que o internauta pretende aceder, obrigando – na melhor das hipóteses – a clicar para retirar a publicidade que nos impede de ver o que queremos. Por isso, muitos utilizadores da Internet poderão decidir livremente bloquear a publicidade se lhes derem a opção de o fazer ou não.

E aí, disponibilizar essa opção poderá ser uma vantagem competitiva para operadores que a ofereçam para condições idênticas de preço e serviço, o que poderá levar a prazo a um alargamento substancial dos ISP que fornecem essa funcionalidade.

Nesse caso estará em causa um paradigma da Internet que hoje conhecemos: um largo leque de serviços gratuitos. Porque não há almoços grátis, se os utilizadores têm um serviço disponibilizado sem custos, alguém tem de pagar: os que fazem publicidade.

Por isso, tem razão Jean-Baptiste Fontana, fundador do sítio noticioso www.Frequence sud.fr, que diz que os pequenos sítios Web serão os primeiros a sofrer e argumenta:

«Muitos sítios Web, e particularmente a imprensa online, tem trabalhado com um contrato implícito com os seus leitores: vocês recebem informação valiosa e não lhes pedimos que paguem porque os anunciantes pagam por vocês».

Contudo, a outra face da moeda é que este modelo desvaloriza o trabalho desenvolvido por quem fornece esses serviços. O que não é pago é menos valorizado.

E quem paga influencia sempre os conteúdos. No caso dos jornais online, se os leitores quiserem garantias de verdadeira independência da informação face aos poderes estabelecidos e, em particular, face ao poder económico, terão de pagar por esse serviço. E, obviamente, irão valorizá-lo mais.

Xavier Niel, o empresário que controla a Iliad, companhia que detém a Free, começou na década de oitenta, com o Minitel, uma rede paga precursora da Internet que teve grande expressão em França mas não vingou nos outros países.

Com a expansão do acesso à Internet e o desaparecimento do Minitel, a empresa aposta no operador Free que apresenta um serviço triple play (televisão, Internet e telefone) de baixo custo, que começou a oferecer Internet com velocidades elevadas e chamadas grátis para número fixos em França e noutros países e mesmo para números móveis, além de leitor blu-ray incluído na set-top-box e gamepad para jogos, sem custos adicionais.

O New Iorque Times recorda que no ano passado a Iliad entrou na operação de redes de telefonia móvel com um serviço de muito baixo custo, sacudindo o domínio dos três operadores de telecomunicações móveis estabelecidos.



Fernando Valdez

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