Hipocrisia

Publicado em 04/06/2012 01:57 em Opinião

O New York Times veio apontar para o envolvimento oficial do presidente e do governo dos Estados Unidos na determinação de actos de pirataria informática contra outros países, nomeadamente o Irão. Mas tudo indica que não só o Irão.

A tese segundo a qual os «worms», que terão sido desenvolvidos por peritos dos Estados Unidos e Israel, foram utilizados contra outros países e organizações confirma as suspeitas levantadas no relatório que uma universidade hungara fez após análise do mais sofisticado e complexo malware que se conhece.

A Universidade de Tecnologias e Economia, num relatório sobre a análise do «worm» que baptizou de «sKyWiper», considerava que o malware, pela sua complexidade e sofisticação, terá sido desenvolvido por uma agência governamental de um Estado, com orçamento e esforços significativos.

Aquela Universidade dizia que o «worm» terá sido usado contra outros países além do Irão, aparentemente incluindo sistemas informáticos infectados na própria Hungria.

Os Estados Unidos têm-se sempre orgulhado de serem o berço da Internet. Afirmam-se paladinos da liberdade e dos direitos humanos. E orgulham-se, com razão ou sem ela, não me cabe apreciar, do seu aparelho judicial.

O FBI, como muitas outras polícias, tem sempre manifestado uma enorme sanha perseguidora dos chamados «hacktivistas», que actuam por razões ideológicas e não visando o lucro, e prende todos os que identifica.

Irá o FBI prender também o ex-presidente Bush, os actuais presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, antigos e actuais dirigentes da CIA e NSA, alegados mandantes dos ciberataques, e os peritos que terão desenvolvido (pelo menos) três vermes informáticos com efeitos devastadores?

Irá a justiça dos Estados Unidos indiciar os alegados responsáveis por aqueles ataques informáticos apontados pelo New York Times e averiguar até ao fim a sua culpabilidade?

Como poderão os tribunais dos Estados Unidos continuar a julgar e condenar os «hacktivistas» que alegadamente actuam em defesa da Internet livre e para contestar o sistema quando os mais altos responsáveis do seu país alegadamente serão, segundo o texto do New York Times, culpados de ordenar pirataria informática, o mesmo é dizer, responsáveis por essa actividade, pelo menos até ser estabelecida a culpa ou inequívoca inocência dos governantes dos EUA.

Os «hacktivistas», que não visam o lucro mas contestar o sistema, por linhas muito tortas, defendem uma causa nobre, a de uma Internet livre.

Há uma grande diferença entre eles e piratas informáticos que visam o lucro e devem ser equiparados a qualquer outro criminoso.

Sabe-se que se´os responsáveis norte-americanos tiverem de reconhecer que mandaram desenvolver e usar «malware» vão invocar que o fizeram pelas mais nobres razões e em defesa dos interesses dos Estados Unidos. Na minha opinião, também por linhas muito tortas, como o é sempre uma guerra, seja real ou no espaço cibernético.

Aqui, como em muitas outras situações, a hipocrisia não tem limites.



Fernando Valdez

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