Morte de Steve Jobs deixa um vazio

Publicado em 06/10/2011 13:48 em Opinião

Steve Jobs, que agora morreu aos 56 anos, deixa um vazio na capacidade de aperceber o que os consumidores realmente desejam e conceber e produzir dispositivos inovadores que vão efectivamente ao encontro do que as pessoas querem.

Numa altura em que se fala muito de que as pessoas pretendem ter acesso (virtual) a tudo em qualquer lugar e a qualquer hora, o fundador da Apple foi mais longe e concretizou esses desejos com dispositivos inovadores, atractivos, de fácil utilização e de qualidade.

Aos 21 anos fundou a Apple e rapidamente alcançou o êxito com os seus computadores.

Quando a IBM lançou o computador pessoal, Jobs foi mais além e criou o MacIntosh, que funcionava com um rato e utilizando ícones que abriam janelas, quando os PC IBM ou IBM compatíveis funcionavam com comandos escritos ou por combinações de teclas.

Enquanto os possuidores de um MacIntosh chegavam aos programas pretendidos com um clique num ícone, os utilizadores de PC tinham de escrever uma multiplicidade de comandos para entrarem num programa ou mudarem de programa.

A alternativa era criar pequenos programas com a extensão «.bat», designados por ficheiros «batch», que continham a sequência de comandos necessária e possibilitavam a execução dos programas escrevendo apenas o nome que escolhíamos para o ficheiro «batch».

Tive muitas dezenas desses ficheiros «batch» nos meus primeiros computadores, mas era obrigado e fixar a designação que correspondia a cada programa (ou jogo) em que pretendia entrar. Ficheiros de que a grande maioria dos jovens de hoje nem sequer ouviu falar.

Porquê o êxito do PC e porque é que o MacIntosh se tornou um produto de nicho e que, com a evolução do Windows, se tornou marginal até ao lançamento do iMac.

O hardware e software do MacIntosh eram bastante mais caros do que os dos PC IBM compatíveis, que com a multiplicação de marcas se tornaram menos inacessíveis do que os produtos da Apple.

Menos inacessíveis porque nos anos oitenta um PC custava algumas centenas de contos, o equivalente hoje a vários milhares de euros, nomeadamente tendo em conta a inflação, mas os MacIntosh eram mais caros e o software para eles economicamente muito menos acessível.

Para alguns possuidores de PC dava «um certo gozo» lidar com uma máquina que não era de fácil utilização para todos, ao contrário do MacIntosh, que era de fácil de usar para quem tivesse dinheiro para a ele aceder.

Mas julgo que a decadência da Apple até ao regresso do seu fundador se deveu sobretudo à incapacidade para responder às dificuldades inovando e criando novos produtos que respondessem ao que as pessoas desejavam e que criassem novas apetências nos consumidores, uma arte de Steve Jobs.

Hoje, no dia da morte de Steven Paul Jobs, muitos o têm comparado a Leonardo da Vinci ou Einstein. Acrescentaria génios da humanidade da minha predilecção: Arquimedes, Galileu e Lavoisier.

Num plano muito diferente do daqueles cientistas, Steve Jobs foi genial e inovador na área das tecnologias da informação. Mas ao contrário da visão que temos dos génios, desligados das preocupações do comum dos mortais, a genialidade de Jobs residiu em aperceber-se daquilo que as pessoas gostariam de ter e concretizar essas aspirações da maneira mais adequada e feliz.

Pessoas como ele não surgem todos os dias. E, mesmo inspirando-se em Jobs e com a vontade de continuar a sua obra, como diz hoje Tim Cook na carta aos trabalhadores da companhia, dificilmente a Apple continuará a inovar de forma tão certeira como o fazia sob a liderança do seu fundador.



Fernando Valdez

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